Um porto a setenta quilómetros do mar
A maré ainda chega a Mértola. O Guadiana sobe e desce duas vezes por dia junto ao paredão da vila, a cerca de 70 quilómetros da foz, e é essa particularidade — não a paisagem, não o castelo — que explica tudo o que ali aconteceu nos últimos dois mil anos. Mértola é o ponto mais a montante onde um navio consegue chegar. Acima dela, o rio deixa de servir para transportar carga.
Foi por isso que os romanos ali fizeram uma cidade. Myrtilis recebeu o direito latino de Octaviano e o estatuto de município terá sido concedido entre 12 a.C. e 37 d.C.; Plínio-o-Velho inclui-a entre os oppida veteris Latii e Ptolomeu nomeia-a. Não era grande: ocupava cerca de cinco hectares, com uma muralha de 1 291 metros e quatro portas identificadas. Era, isso sim, o sítio onde o rio e a estrada se encontravam.
A tensão desta história está no que acontece quando essa vantagem desaparece. Uma cidade que existe porque é o fim da navegação deixa de ter razão para existir quando deixa de haver navegação — e Mértola perdeu-a duas vezes, com quinze séculos de intervalo.
O que descia o rio
De Myrtilis saía o interior do Baixo Alentejo. Minério das minas de Aljustrel e de São Domingos, cereal das villae em redor, metais que a arqueologia identifica como prata, ouro e estanho, escoados pelo Guadiana até ao sul da Hispânia e ao Mediterrâneo. Em sentido contrário subiam vinho e azeite em ânforas — as chamadas greco-itálicas e as Dressel 1 encontradas na vila são importações, não produção local.
Um porto mede-se pelo que nele aparece que não é dali. Em Mértola apareceram moedas de Emerita, Gades, Segóbriga e Caesaraugusta, e uma moeda de ouro de Nero com a legenda CONCORDIA AVGVSTA. Os epitáfios do Rossio do Carmo estão em latim, em grego e com simbologia hebraica; as lápides gregas dos séculos VI e VII são o rasto de mercadores bizantinos numa vila do interior alentejano.
Essas mesmas inscrições funerárias dão a Mértola algo que poucos sítios têm: uma prova documental de continuidade. O trabalho epigráfico de Manuela Alves Dias permite atestar ocupação ininterrupta entre, pelo menos, os anos 462 e 729 — atravessando o fim do domínio romano, o período visigótico e a chegada dos árabes sem nenhum vazio.
Mîrtula, capital de si própria
Em 713, Mértola é tomada por Muça ibne Noçáir, no mesmo movimento que levou Medina Sidónia e Sevilha, e passa a chamar-se Mārtulah. Durante o domínio islâmico é descrita como o porto mais ocidental do Mediterrâneo — o que é outra maneira de dizer a mesma coisa: continuava a ser o limite navegável.
Duas vezes foi capital de um Estado próprio. A primeira taifa dura de 1033 a 1044, fundada por Ibn Tayfur, estendendo-se pelas duas margens do Guadiana, até ser absorvida pela taifa de Sevilha. A segunda é mais curta e mais estranha: no outono de 1144, com o poder almorávida a desfazer-se, Ibn Qasi — nascido em Silves, líder dos murīdūn, um movimento sufi de contornos revolucionários — é proclamado imame em Mértola. O imamado dura até ao verão de 1145. Ibn Qasi aliar-se-ia depois aos Almóadas, governaria Silves em nome deles, revoltar-se-ia com apoio de Afonso Henriques e acabaria decapitado pelos seus próprios seguidores em 1151.
A conquista cristã chega em 1238, por forças de D. Sancho II comandadas por Paio Peres Correia. No ano seguinte a vila é doada à Ordem de Santiago; recebe foral em 1254 e chega a ser a sede do capítulo da Ordem em Portugal, antes da transferência para Palmela. A torre de menagem do castelo, com cerca de 30 metros, fica concluída em 1292.
A mesquita que nunca deixou de ser usada
O edifício mais improvável de Mértola é a igreja matriz. Foi construída na segunda metade do século XII, em período almóada, como mesquita — e, ao contrário de praticamente todas as outras da Península ocidental, não foi demolida para dar lugar a um templo cristão. Foi convertida.
A planta ainda se lê. A estrutura original tinha seis tramos sustentados por vinte colunas; a actual tem quatro tramos e doze colunas distribuídas por cinco naves. Quatro portas conservam arcos de ferradura com moldura de alfiz. O minarete, de planta quadrada e cerca de 15 metros, passou a torre sineira. O mihrab, no lado sudeste, com decoração de estuque formando três arcos cegos polilobados, foi coberto com reboco depois da conversão e só voltou a ser exposto muito mais tarde.
As obras de 1532 mudaram a cobertura, substituíram os tectos de madeira por abóbadas nervuradas, redistribuíram as naves e acrescentaram um portal renascentista e merlões de gosto mudéjar. É essa sobreposição — mesquita almóada, adaptação quinhentista, uso religioso contínuo até hoje — que faz do edifício um documento e não uma ruína. Está classificado como Monumento Nacional por decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo de 23 de junho desse ano.
O século que deu tudo e levou tudo
A segunda vida do rio começa em 1856, quando a firma britânica Mason & Barry obtém a concessão da mina de São Domingos, a pouco mais de vinte quilómetros da vila. A extracção arranca em 1858. Os romanos já lá tinham andado — estima-se que tenham retirado cerca de 150 mil metros cúbicos de material, o equivalente a 650 mil toneladas —, mas a escala industrial é outra.
Os números do apogeu explicam a demografia de todo o concelho. A empresa chegou a empregar cerca de 3 500 operários e a aldeia mineira chegou a ter 8 700 residentes. Em 1907 extraíam-se perto de mil toneladas de minério por dia; em 1914, cerca de 400 mil toneladas por ano. Ao longo de 112 anos de operação saíram dali mais de 25 milhões de toneladas de pirites.
Para escoar o minério construiu-se um caminho-de-ferro de cerca de 17 quilómetros entre a mina e o Pomarão, no Guadiana. Entrou em serviço em 1862 com tracção animal e em 1867 passou a vapor, com bitola de 1 065 milímetros — foi uma das primeiras linhas férreas do país, apenas dois anos depois da linha Lisboa-Carregado. O porto do Pomarão foi inaugurado em 1859; em 1864 entraram lá 563 navios. A Mason & Barry dragava continuamente o leito do rio e mantinha pilotos próprios para guiar os barcos. A mina instalou a primeira central eléctrica do Alentejo e o complexo tinha teatro e hospital.
Em 1966 extraiu-se minério pela última vez, esgotada a jazida e caídos os preços; em 1968 a empresa faliu, com dívidas aos trabalhadores. O que ficou no terreno são cerca de 25 milhões de metros cúbicos de resíduos, dos quais perto de 14 milhões debaixo da aldeia, e um território afectado superior a seis mil hectares, com drenagem ácida que ainda hoje escurece as linhas de água.
O efeito na população é o dado mais brutal desta história. Mértola tinha 29 353 habitantes em 1950, o máximo da sua série censitária, e 26 026 em 1960. Em 1970 tinha 14 310 — menos 45 por cento numa única década. A queda continuou sem interrupção: 11 693 em 1981, 9 805 em 1991, 8 712 em 2001, 7 274 em 2011, 6 206 em 2021. Entre 1950 e 2021 o concelho perdeu perto de 79 por cento dos seus habitantes. O Pomarão, o porto por onde saíram milhões de toneladas, tinha 11 residentes em 2023.
Menos de cinco pessoas por quilómetro quadrado
Mértola ocupa 1 292,87 quilómetros quadrados — é um dos maiores municípios do país em área — e tinha 6 206 habitantes em 2021. Dá menos de cinco pessoas por quilómetro quadrado. Portugal tinha nesse ano 112,2 habitantes por quilómetro quadrado e a União Europeia, em 2022, 109. Mértola tem cerca de um vigésimo terceiro da densidade média europeia.
A pirâmide etária diz o resto. Em 2021, os menores de 15 anos eram 8,8 por cento da população e os maiores de 65 eram 36,8 por cento. Nos anos sessenta, os jovens eram 27,9 por cento e os idosos 8 por cento — os dois números praticamente trocaram de lugar em sessenta anos. Nas freguesias mais envelhecidas do concelho, o índice de envelhecimento passa dos mil idosos por cada cem jovens.
Convém dizer que isto não é uma anomalia isolada, e é aí que o caso deixa de ser local. Segundo os Censos de 2021, os 208 municípios menos densos de Portugal concentram cerca de 20 por cento da população em 65,8 por cento do território, enquanto os sete mais populosos reúnem outros 20 por cento em 1,1 por cento. À escala europeia, o Eurostat contabilizou que quase 60 por cento das células de um quilómetro quadrado da União e da EFTA — 2,69 milhões de células — não tinham ninguém a viver nelas no censo de 2021.
O que se fez com o que ficou por baixo
Em 1978, doze anos depois do fecho da mina e com o concelho a meio da sua queda demográfica, foi fundado o Campo Arqueológico de Mértola, sobretudo por iniciativa do arqueólogo Cláudio Torres. Não era um museu: era uma associação sem fins lucrativos que escavava e, à medida que escavava, ia abrindo núcleos museológicos dentro da própria vila, em vez de concentrar tudo num edifício. Os primeiros núcleos foram montados entre 1991 e 2001 — o castelo, a basílica paleocristã, a oficina de tecelagem, a forja do ferreiro, a arte sacra, a arte islâmica. Hoje o Museu de Mértola – Cláudio Torres reúne catorze unidades e o percurso da vila-museu tem dezasseis paragens, incluindo a mina de São Domingos e Alcaria dos Javazes.
O modelo foi reconhecido cedo: Prémio Nacional de Conservação da Natureza e do Património Histórico-Cultural em 1989 e Medalha de Mérito Cultural do Ministério da Cultura em 1998. E teve efeito mensurável. Entre 2012 e 2017, as entradas na igreja matriz subiram de 26 617 para 46 426, e as da alcáçova de 5 837 para 29 126 — quintuplicaram. O Festival Islâmico, bienal desde 2001, esperava 60 mil visitantes na edição de 2023: cerca de dez pessoas por cada residente do concelho, num único fim-de-semana.
A comparação europeia mais próxima é Bruges. O canal do Zwin, aberto por uma tempestade em 1134, fez da cidade um dos maiores portos medievais da Europa; o assoreamento começou no final do século XIII e por volta de 1500 o canal estava inutilizável. Bruges empobreceu, deixou de se reconstruir — e foi precisamente essa paragem que preservou o tecido medieval que hoje a sustenta. Mértola faz o percurso inverso: em Bruges o que ficou à vista tornou-se o activo; aqui o activo estava enterrado e teve de ser desenterrado por quem decidiu ficar.
Falta uma peça, e é a do princípio. A navegabilidade do Guadiana está a ser reposta por fases com fundos europeus: Vila Real de Santo António–Alcoutim e Alcoutim–Pomarão estão concluídas; a terceira fase, Pomarão–Mértola, prevê um canal com pelo menos 30 metros de largura e dois metros de profundidade de serviço, para embarcações até 70 metros. Se for concluída, o rio volta a chegar ao sítio onde sempre parou — e é a primeira vez em sessenta anos que isso se coloca.