Da pedra pré-romana ao foral real

A história documentada de Monforte começa a ganhar forma tangível no século XIII, num território que necessitava de ser repovoado. Segundo os registos oficiais da Câmara Municipal de Monforte de 2023, foi em 1257 que o Rei D. Afonso III reconquistou e atribuiu a primeira Carta de Foral a este ponto do Alto Alentejo, com o propósito inequívoco de fixar populações numa zona que se encontrava fortemente desabitada e vulnerável.

Contudo, as fundações físicas do burgo assentam em camadas muito mais antigas do que a Idade Média cristã. Documentos e monografias locais referem, de acordo com o Sistema de Informação para o Património Arquitectónico (SIPA) em 2016, que a génese remota do sítio assentou num castro pré-romano, o qual foi transformado sucessivamente num ópido romano e, mais tarde, numa fortificação islâmica.

Esta sobreposição de civilizações moldou o terreno e a própria pedra da região, criando um relevo caraterístico na peneplanície alentejana. O núcleo urbano medieval de Monforte encontra-se catalogado e protegido institucionalmente pela Direção-Geral do Património Cultural na base de dados Monumentos.pt desde 2011, evidenciando uma estrutura defensiva com elementos góticos adaptados rigorosamente à topografia local.

A linha de fronteira e o desenho de Duarte d'Armas

A importância estratégica de Monforte acentuou-se de forma decisiva no início do século XIV, quando a coroa portuguesa quis blindar as suas fronteiras terrestres. De acordo com a Câmara Municipal de Monforte em 2023, foi em 1309 que o Rei D. Dinis ordenou a construção do Castelo de Monforte, integrando-o de jacto numa vasta e rigorosa linha de defesa fronteiriça alentejana.

Pouco mais de dois séculos volvidos sobre essa edificação dionisiana, a fortaleza mereceu a atenção direta da coroa central através da imagem e do traço. Entre 1510 e 1520, o ilustrador régio Duarte d'Armas registou graficamente a fortaleza de Monforte no célebre Livro das Fortalezas, a pedido expresso do Rei D. Manuel I, conforme atestam os arquivos municipais de 2023.

Estes desenhos quinhentistas revelam uma arquitetura militar de feição medieval que viria a sofrer mutações profundas em conflitos posteriores. A cerca urbana, tal como descrita pela Direção-Geral do Património Cultural em 2011, espelha a dureza de uma terra raiana que não conhecia a paz duradoura.

O estilhaço da Restauração e a divisão de 1383

A fortaleza erguida por D. Dinis e desenhada por Duarte d'Armas não resistiu incólume aos grandes cataclismos militares da península. Em junho de 1662, no âmbito tempestuoso da Guerra da Restauração, Monforte foi violentamente ocupada pelas tropas espanholas comandadas por D. João de Áustria, sofrendo gravíssimos danos estruturais nas suas muralhas, segundo a História Educacional do Concelho de Monforte publicada em 2022.

Séculos antes, durante a crise dinástica de 1383-1385, a vila de Monforte tomou um partido político que a distanciou dos vencedores da época. Conforme documenta a mesma História Educacional do Concelho de Monforte de 2022, a povoação optou inicialmente pelo partido castelhano, enquanto a vizinha povoação de Assumar seguiu outro rumo e foi posteriormente libertada, tornando-se alvo de uma ação de graças a Nossa Senhora dos Milagres.

Hoje em dia, o concelho de Monforte engloba administrativamente quatro freguesias atuais — nomeadamente Monforte, Assumar, Santo Aleixo e Vaiamonte —, cada qual conservando o seu próprio património imaterial e memórias de fundação, de acordo com os dados da Câmara Municipal recolhidos em 2022.

A fronteira ténue entre o documento oficial e a tradição oral

A leitura mais óbvia faria crer que Monforte possui um corpus exaustivo de lendas locais publicadas em monografias etnográficas próprias, tal como acontece noutros concelhos vizinhos do Alentejo. Contudo, a investigação documental revela um cenário distinto: grande parte da tradição oral e lendária monfortense sobrevive dispersa em registos distritais genéricos e crónicas de imprensa nacional, longe de compêndios municipais dedicados.

Um exemplo claro desta dispersão encontra-se nos registos etnográficos do distrito de Portalegre. Em 2002 e 2003, o jornalista José Viale Moutinho recolheu e publicou no jornal Diário de Notícias a literatura popular e as lendas tradicionais da região, conforme recordado em publicações especializadas de 2013, colmatando a escassez de monografias textuais estritamente locais.

Neste contexto oral recolhido por outsiders da escrita monográfica, sobressaem elementos marcantes da religiosidade popular do concelho. A tradição oral preserva, por exemplo, a lenda do aparecimento milagroso de Nossa Senhora sobre a pedra do Rossio de Monforte, bem como o episódio histórico e lendário das chamadas 'abebras de Monforte', datado especificamente do Reinado de D. Pedro V, segundo a compilação da História Educacional do Concelho de Monforte de 2022.

O arquivo municipal e os registos etnográficos de Portalegre contrapõem explicitamente a escassez de monografias textuais antigas sobre lendas estritamente monfortenses com a abundância de tradições orais recolhidas na região alto-alentejana, conforme detalhado nas notas informativas do Largo dos Correios em 2013.

O que permanece na paisagem do concelho

A paisagem atual de Monforte continua a ser dominada pelas marcas físicas destas transições seculares entre a guerra, a pedra e a fé popular. As estruturas medievais catalogadas em 2011 pela Direção-Geral do Património Cultural mantêm-se como espinha dorsal de um território que une as quatro freguesias administrativas regidas pela autarquia.

As memórias recolhidas por José Viale Moutinho no Diário de Notícias em 2002 e 2003 continuam a ser o principal veículo de transmissão escrita para narrativas como o milagre do Rossio ou as 'abebras' do século XIX. São estas narrativas que dão alma viva ao património edificado pelas ordens de D. Afonso III em 1257 e de D. Dinis em 1309.

Entre os vestígios dos estragos deixados pelas tropas de D. João de Áustria em 1662 e o traço indelével deixado por Duarte d'Armas entre 1510 e 1520, Monforte preserva uma identidade complexa. Uma identidade que, longe dos folhetos turísticos, subsiste no cruzamento rigoroso entre a pedra documentada nos arquivos e o sopro frágil da tradição oral.