Três contagens para o mesmo concelho

Em 2021, os Censos encontraram 29 538 pessoas a viver em Odemira. No ano seguinte, a unidade de cuidados de saúde personalizados do concelho tinha 32 762 utentes inscritos — mais 3 224 do que os residentes que o recenseamento tinha contado. Em 2025, a estimativa de população residente do Instituto Nacional de Estatística coloca Odemira em 44 043 habitantes.

São três números para o mesmo território, produzidos pelo mesmo Estado, com quatro anos de intervalo entre o primeiro e o último. Nenhum deles está errado: contam coisas diferentes. Os Censos contam quem foi recenseado numa noite de abril; os registos de saúde contam quem se inscreveu num centro de saúde; as estimativas cruzam o recenseamento com registos administrativos, entre eles os títulos de residência. Quando as três séries divergem tanto, a divergência deixa de ser um detalhe metodológico e passa a ser a notícia.

O que está em causa é prático. É com base na população que se distribuem verbas, se dimensionam escolas, se calculam médicos por habitante e se planeiam casas. Um concelho que aparece com 29 mil habitantes num documento e 44 mil noutro é dimensionado duas vezes de maneira diferente.

O único que cresceu

Nos resultados dos Censos de 2021, Odemira foi o único dos 47 concelhos do Alentejo que ganhou população na década anterior: passou de 26 066 residentes em 2011 para 29 538, mais 13,3 por cento. A região, no mesmo período, perdeu perto de 7 por cento — a maior queda de todas as regiões portuguesas. No extremo oposto ficou Barrancos, com menos 21,8 por cento, o recuo percentual mais acentuado dos 308 municípios do país.

O que aconteceu depois de 2021 é mais acentuado do que o que aconteceu antes. Entre 2021 e 2025, segundo a Pordata a partir dos dados do INE, Odemira ganhou 7 886 pessoas — um crescimento de 21 por cento, quando a média nacional no mesmo período foi de 7,8 por cento. O concelho cresceu quase três vezes mais depressa do que o país.

O detalhe que explica quase tudo está na decomposição desse crescimento. O saldo natural — nascimentos menos óbitos — foi negativo em 415 pessoas. O saldo migratório foi positivo em 8 301. Em Odemira continuam a morrer mais pessoas do que as que nascem, exactamente como no resto do Alentejo. A diferença é que chegam mais do que as que saem, e chegam em número suficiente para inverter o sinal.

O que puxa: doze mil hectares desenhados nos anos sessenta

O motor não é novo. O Aproveitamento Hidroagrícola do Mira foi construído entre 1963 e 1973 e beneficia, segundo a Direção-Geral de Agricultura e Desenvolvimento Rural, uma área de 12 000 hectares, dos quais 10 670 ficam no concelho de Odemira e cerca de 1 330 no de Aljezur. A água vem da barragem de Santa Clara, no rio Mira, concluída em 1968. A gestão está a cargo da Associação de Beneficiários do Mira.

O perímetro foi pensado para uma agricultura que não é a que hoje ali se pratica. Entre 2013 e 2018, a área efectivamente regada variou entre 4 911 e 5 808 hectares — menos de metade da área beneficiada. Nessa fracção instalou-se a produção intensiva de frutos vermelhos em estufas, túneis e abrigos, que a DGADR descreve como preponderante na parte odemirense do aproveitamento.

O valor está do lado da exportação. Segundo o Ministério da Agricultura, as exportações portuguesas de pequenos frutos atingiram 398 milhões de euros em 2025, mais 17 por cento do que em 2024 e mais de o triplo do que há dez anos. À escala nacional, o mirtilo ocupa 2 670 hectares e a framboesa 1 564. É uma cultura que exige mão-de-obra durante quase todo o ano e que não se mecaniza: cada quilo é colhido à mão.

Quem chegou

No final de 2025, segundo dados do INE, Odemira tinha 22 930 residentes estrangeiros num total de 44 043 — 52,06 por cento. Em Portugal, a mesma fonte aponta 1 597 539 estrangeiros em 11 424 031 residentes, cerca de 14 por cento. Odemira tem, portanto, quase quatro vezes a proporção nacional. Entre os concelhos do país, só Albufeira apresenta um valor da mesma ordem, 55,1 por cento em 2024 pelos dados do Observatório das Migrações; no Alentejo, o segundo mais alto é Ferreira do Alentejo, com 30,2 por cento.

A concentração fica mais nítida à escala da região. O Alentejo tinha 71 309 estrangeiros em 2025, 13,9 por cento da sua população, contra 35 035 em 2021. Perto de um terço deles vive em Odemira, um concelho que representa menos de um décimo da população alentejana.

Quanto às origens, os dados mais recentes por nacionalidade que foi possível confirmar são de 2020, quando a Alta Comissária para as Migrações indicava que o Nepal e a Índia representavam, cada um, cerca de 24 por cento dos estrangeiros do concelho, e a Bulgária 10 por cento. Entre 2015 e 2020, a população estrangeira de Odemira cresceu 143 por cento. Um retrato indirecto e mais recente vem das escolas: em 2022/23 havia 697 alunos estrangeiros no concelho, oriundos de 32 países, mais 27,7 por cento do que no ano lectivo anterior, com o Nepal (170) e a Índia (166) à cabeça. Cerca de metade dos aproximadamente 700 alunos das escolas de São Teotónio são filhos de estrangeiros.

A leitura mais fácil, e porque não se aguenta

A explicação intuitiva para o crescimento de Odemira é que o concelho está a receber famílias e a rejuvenescer por nascimentos. Os números não a sustentam: o saldo natural continua negativo. Todo o crescimento vem de fora.

Há uma segunda leitura, que circula com frequência, e que também não resiste à verificação: a de que os estrangeiros já seriam a maioria antes de 2024. Em 2023, o Polígrafo classificou como falsa a afirmação de que Odemira teria mais população imigrante do que residente, com base nos dados então disponíveis, dos Censos de 2021.

E há um número que exige cuidado. O Observatório das Migrações, no relatório sobre a população estrangeira em 2024, atribui a Odemira 68,7 por cento — o valor mais alto do país. O próprio documento explica a construção: o numerador são títulos de residência da AIMA, o denominador é a estimativa de população residente do INE para o mesmo ano. Como o INE reviu depois em alta a população do concelho, o rácio de 2024 ficou inflacionado. Os 52,06 por cento do INE para 2025 e os 68,7 por cento da AIMA para 2024 não são duas medições do mesmo facto: são duas contas com denominadores diferentes. Quem escolher o número maior está a escolher a conta menos consistente.

O que o crescimento não resolveu

A Carta Municipal de Habitação de Odemira, na proposta preliminar de fevereiro de 2025, é o documento mais directo sobre o assunto. Aponta 21 por cento dos alojamentos do concelho em situação de sobrelotação, concentrados sobretudo em São Teotónio e Relíquias, e estima em 3 200 os trabalhadores agrícolas temporários que necessitam de alojamento digno. Identifica 1 400 agregados a precisar de realojamento e projecta mais 2 140 até 2037.

Ao mesmo tempo, o Diagnóstico Social do concelho contabiliza 3 963 alojamentos vagos em 2021, mais 536 do que dez anos antes. Casas vazias e casas sobrelotadas no mesmo território não é uma contradição estatística: é o que acontece quando a habitação existente está onde as pessoas não trabalham, ou fora do alcance de quem trabalha.

Sobre as soluções temporárias, a mesma Carta é precisa: o município autorizou capacidade para cerca de 3 200 pessoas em instalações de alojamento temporário amovível em 2023 e 2024, mas em agosto de 2024 apenas 1 998 estavam plenamente conformes. O documento sublinha que se trata de soluções transitórias e que a integração urbana permanente é exigida até 2029.

O historial é conhecido. A 30 de abril de 2021 foi decretada uma cerca sanitária às freguesias de São Teotónio e Longueira/Almograve. Num único controlo da GNR, a 10 de maio, foram fiscalizados 792 trabalhadores e 155 foram impedidos de entrar por não apresentarem teste negativo. Nesse ano, até 12 de maio, a Autoridade para as Condições do Trabalho tinha feito 122 visitas a 92 empresas do concelho e levantado 144 autos, abrangendo 4 318 trabalhadores.

O mesmo padrão, quatro países

Odemira não é uma anomalia portuguesa: é a versão portuguesa de um padrão europeu bem documentado.

Em Almería, no sul de Espanha, a campanha de 2024/25 contou cerca de 33 000 hectares de estufas e exportações de 3 716 milhões de euros, segundo a Junta de Andaluzia. Na província de Ragusa, na Sicília, a chamada fascia trasformata passou de cerca de 34 hectares de estufas em 1960 para mais de 15 000 hoje, com perto de 28 000 trabalhadores agrícolas, dos quais 12 600 estrangeiros. Em Westland, nos Países Baixos, o município reconhece cerca de 12 000 trabalhadores migrantes na horticultura, dos quais apenas 4 500 alojados dentro dos seus limites, e assume o alojamento como uma tarefa por resolver.

A sequência repete-se: água ou clima que permitem produzir fora de época, procura europeia durante todo o ano, uma cultura que não se mecaniza, e um território rural com poucos habitantes a receber, em poucos anos, mais trabalhadores do que casas.

Fica uma consequência que se mede e que raramente se enuncia. O índice de envelhecimento de Odemira desceu de 202 idosos por cada 100 jovens em 2021 para 179 em 2025. O Alentejo está nos 222 e a média nacional em 188,8. O concelho rural que era mais envelhecido do que o país passou a ser mais novo do que ele. Em 2023/24, o agrupamento de escolas de São Teotónio abriu mais dez salas de aula, com um investimento de cerca de 200 mil euros, e reabriu escolas que tinham sido encerradas — o inverso exacto do que aconteceu na maioria dos concelhos vizinhos na mesma década.