O contraste solitário de Odemira

Enquanto a generalidade dos concelhos alentejanos regista uma perda acentuada de habitantes, Odemira destaca-se como uma exceção demográfica no mapa regional. Dados do Instituto Nacional de Estatística referentes a 2021 mostram que o concelho cresceu 13,3% na década intercensitária, passando de 26.066 para 29.523 residentes. Esta trajetória contrasta de forma radical com a realidade de municípios como Barrancos, que perdeu 21,8% dos seus habitantes, ou Nisa, que registou uma quebra de 20,1% no mesmo período de dez anos.

Esta dinâmica de sentido único aprofundou-se de forma acentuada na primeira metade da década seguinte. Os registos oficiais do Instituto Nacional de Estatística para 2025 revelam que a população residente em Odemira disparou até atingir 44.043 pessoas. Este crescimento expressivo foi inteiramente impulsionado pela chegada de fluxos migratórios internacionais direcionados para o setor da agricultura intensiva instalada no sudoeste alentejano.

Como consequência direta desta transformação demográfica, os cidadãos estrangeiros passaram a constituir a maioria absoluta no município. Em 2025, de acordo com os dados apurados pelo Instituto Nacional de Estatística, a comunidade imigrante representava 52,06% da população total do concelho, totalizando 22.930 residentes estrangeiros a viver e a trabalhar nas explorações agrícolas locais.

A erosão demográfica do interior

Fora da faixa litoral e das ilhas de produção agrícola intensiva, o cenário demográfico do Alentejo permanece marcado por um declínio estrutural profundo e generalizado. Os Censos de 2021 do Instituto Nacional de Estatística demonstram que 46 dos 47 concelhos da região registaram um decréscimo populacional contínuo ao longo da década, consolidando o envelhecimento e a perda de peso relativo face ao litoral nacional.

Este esvaziamento não se restringe apenas às pequenas aldeias rurais ou aos municípios de baixa densidade mais isolados do território. De acordo com os dados do Instituto Nacional de Estatística de 2021, as sedes de concelho do interior alentejano, nomeadamente Évora, Portalegre e Beja, perderam em conjunto um volume de residentes superior ao registado por muitos municípios rurais de pequena dimensão.

A incapacidade de reter população ativa nestes centros urbanos regionais alimenta um ciclo de desertificação que afeta a prestação de serviços e a vitalidade económica local. Com 46 concelhos em contracção demográfica, a perda global de 8,1% da população entre 2011 e 2021, contabilizada pelo Instituto Nacional de Estatística nos 468.802 residentes totais, evidencia que o Alentejo continua a encolher demograficamente.

A degradação física dos solos e a seca

A desertificação no Alentejo não se esgota na demografia, manifestando-se também na perda de capacidade produtiva e na degradação profunda dos solos e dos recursos hídricos. Um estudo da Universidade Nova de Lisboa publicado em 2023 indica que cerca de 94% do território da NUTS III Baixo Alentejo apresenta suscetibilidade à desertificação, impulsionado por fatores climáticos e pela pressão exercida pelo uso intensivo dos solos.

A intensidade deste processo varia entre diferentes patamares de gravidade ecológica na região sul. Segundo a mesma investigação da Universidade Nova de Lisboa de 2023, Mértola atingiu uma taxa de suscetibilidade à desertificação de 96%, repartida entre níveis críticos, muito elevados e elevados de degradação ambiental e perda de matéria orgânica nos solos.

No conjunto do Baixo Alentejo, a distribuição espacial deste fenómeno assume proporções alarmantes para o futuro a médio prazo. De acordo com os dados da Universidade Nova de Lisboa de 2023, 38% do território foi classificado com suscetibilidade crítica à desertificação, 35% com suscetibilidade muito elevada e 21% com nível elevado, enquanto o Instituto Português do Mar e da Atmosfera registou em 2023 que a precipitação média anual na estação de referência do Baixo Alentejo caiu para metade entre 1940 e 2022.

A leitura linear posta à prova pelos factos

A leitura linear e mais imediata sugere que a imigração maciça e o crescimento demográfico pontual em concelhos como Odemira estão a travar com sucesso a desertificação demográfica e económica de todo o Alentejo. Contudo, quando se cruzam as estatísticas populacionais com os indicadores ambientais e sociais, verifica-se que esta conclusão simplista não resiste à prova dos factos recolhidos no terreno.

O fenómeno migratório encontra-se altamente localizado, concentrando-se quase em exclusivo no litoral agrícola e em poucas áreas de produção intensiva. Enquanto Odemira regista 52,06% de estrangeiros em 2025 segundo o Instituto Nacional de Estatística, o resto da região enfrenta a perda simultânea de habitantes em 46 concelhos e uma desertificação física que afeta 94% do Baixo Alentejo, conforme os dados da Universidade Nova de Lisboa de 2023.

Para além do desfasamento territorial entre a imigração e o interior despovoado, a região debate-se com graves carências económicas estruturais que a chegada de novos residentes não tem capacidade de resolver por si só. Os dados do Instituto Nacional de Estatística referentes a 2024 mostram que o Alentejo registou uma incidência de pobreza monetária de 17,9%, a mais elevada de todo o Portugal continental, medindo o limiar de rendimento das famílias locais.

O motor agrícola e a dependência de mão de obra

A centralidade da imigração para o modelo económico do sudoeste alentejano é inegável, funcionando como o único suporte operacional da agricultura intensiva na atualidade. Um barómetro setorial divulgado em 2025 pela Associação de Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur revela que 83% das empresas agrícolas da região consideram os trabalhadores imigrantes absolutamente fundamentais para o sucesso da atividade económica.

A dependência estrutural do setor face aos fluxos migratórios reflete-se diretamente na composição dos quadros de pessoal das explorações agrícolas locais. De acordo com o inquérito da Associação de Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur de 2025, em 73% das empresas inquiridas no sudoeste alentejano, mais de metade dos postos de trabalho encontravam-se preenchidos por cidadãos estrangeiros.

As origens geográficas destes trabalhadores concentram-se predominantemente numa nacionalidade específica no contexto asiático. Segundo os dados da Associação de Horticultores, Fruticultores e Floricultores dos Concelhos de Odemira e Aljezur de 2025, o Nepal lidera a proveniência dos imigrantes nas explorações agrícolas da zona, sendo mencionado por 86% das empresas, enquanto 83% dos respondentes apontam o desinteresse generalizado pela atividade por parte da mão de obra nacional como o principal motivo para esta realidade.

O impacto real para quem vive no território

Para quem habita num dos 47 concelhos do Alentejo, a dicotomia entre o crescimento pontual do litoral e a desertificação generalizada do interior traduz-se numa realidade de contrastes profundos no dia a dia. As famílias que permanecem nas sedes de concelho do interior enfrentam o encerramento progressivo de serviços públicos, o envelhecimento acentuado das comunidades locais e uma taxa de pobreza monetária de 17,9% apurada pelo Instituto Nacional de Estatística em 2024, a mais alta do continente.

A chegada de dezenas de milhares de imigrantes a Odemira, onde representam mais de metade da população em 2025 de acordo com o Instituto Nacional de Estatística, resolve as necessidades de contratação de 83% das empresas agrícolas do sudoeste, segundo a associação setorial de 2025, mas não gera repercussões demográficas positivas nos municípios vizinhos do interior profundo que continuam a perder população.

Assim, os números oficiais demonstram que a imigração atua como um pilar económico indispensável para a agricultura intensiva litoral, mas não constitui, por si só, um travão à desertificação demográfica e ambiental que continua a avançar sobre 94% dos solos do Baixo Alentejo, conforme quantificado pela Universidade Nova de Lisboa em 2023.