O eremita e a peste de 1580
A história da fundação invisível e da proteção espiritual de Alandroal arranca frequentemente pelas pegadas de um eremita chamado João Sirgado. Segundo a tradição oral colhida e divulgada pela Câmara Municipal de Alandroal em 2024, este homem deslocava-se diariamente a pé até ao local para orar fervorosamente a São Bento da Contenda. A lenda popular atribui a esta figura mística um feito extraordinário: ter livrado a vila inteira do efeito mortífero da peste no ano de 1580, conforme apontam os mesmos dados camarários de 2024.
Enquanto a Europa e a Península Ibérica enfrentavam surtos devastadores que dizimavam populações inteiras no final do século XVI, a narrativa local ancorou a salvação da comunidade a esta figura de devoção e isolamento. Ao contrário de grandes centros urbanos que registavam óbitos em massa nos livros paroquiais, a memória coletiva de Alandroal preservou a imagem do eremita como um escudo invisível contra a doença que assolava o reino.
Este cruzamento entre o sagrado e a catástrofe biológica moldou a identidade de uma região profundamente marcada pela vida de fronteira. A longevidade desta história popular demonstra como as comunidades da raia encontraram na figura do eremita uma explicação reconfortante para a sobrevivência num período de extrema vulnerabilidade demográfica e sanitária.
De pedras e mestres construtores
A solidez material de Alandroal contrasta com a subtileza do mito, ancorando-se em datas e marcos administrativos rigorosamente documentados pela autarquia em 2024 e 2020. A fundação oficial do concelho está cronologicamente fixada no ano de 1298 por D. Lourenço Afonso, Mestre de Avis, num esforço de ordenamento territorial e militar detalhado pela Câmara Municipal em 2020.
As obras de fortificação do imponente Castelo de Alandroal iniciaram-se exatamente em fevereiro de 1294 e prolongaram-se por um período exato de quatro anos, concluindo-se em 1298, de acordo com os documentos históricos divulgados pela autarquia em 2024. Nos registos municipais da mesma fonte de 2024, a tradição histórico-construtiva aponta um mouro chamado Galvo como o mestre construtor original responsável pelo desenho da fortaleza medieval.
A complexidade administrativa evoluiu rapidamente nas décadas seguintes, culminando na emissão do foral manuelino do concelho em 1486, com revisões posteriores introduzidas em 1514, conforme os registos históricos da Câmara Municipal de 2020. Apesar de a tradição popular referir persistentemente cartas de foro anteriores associadas a D. Afonso Henriques, os documentos escritos fixam a institucionalização jurídica nestes marcos do final do século XV.
Tesouros de serpentes e águas sagradas
No vasto repertório do património oral alandroalense, a água e o subsolo assumem um papel central em narrativas de cariz lendário. Na lenda da Fonte do Alandro, localizada na Mina do Bugalho e documentada pela Câmara Municipal em 2024, a tradição estipula que a água ganhou este nome devido ao uso obrigatório e específico de uma folha de alandro colocada na bica.
A mesma lenda da Fonte do Alandro, registada pela autarquia em 2024, descreve a guarda de uma panela repleta de tesouros por uma cobra vigilante, impondo uma prova de coragem singular ao pretendente: o animal exigia tocar na testa do corajoso mortal exatamente à meia-noite para que a riqueza pudesse ser reivindicada e libertada do encantamento.
Poucos quilómetros mais a norte, na freguesia de Terena, o Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova acumula duas lendas fundamentais recolhidas no mesmo dossier autárquico de 2024. A primeira envolve a rainha D. Maria a pernoitar no local no regresso de Évora, após o pai, D. Afonso XI, recusar o auxílio militar a Castela, num episódio documentado pela Câmara Municipal em 2024 que antecede a construção monumental do templo.
O rigor dos arquivos e o peso do mito
A leitura mais óbvia sugeriria que as lendas de Alandroal sobre mouras encantadas e tesouros guardados por cobras são puras fábulas sem qualquer correlato documental. Contudo, os registos históricos e monográficos da Câmara Municipal e da Universidade de Évora, divulgados em 2024, demonstram que estas narrativas orais sobrepõem-se milimetricamente a locais de fortificação medieval autênticos, como Alandroal e Juromenha, onde uma lenda semelhante recolhida pela autarquia em 2024 relata que um rico Godo prendeu a sua irmã Mégnia ou Menha por esta recusar amores não correspondidos, dando origem à Torre da Menha.
A separação entre a tradição oral e o registo histórico é visível quando se confrontam as lendas de milagres com os autos de tribunal ou as crónicas militares. A segunda lenda de Terena, documentada pela Câmara Municipal em 2024, relata que um prisioneiro condenado viu as suas algemas desaparecerem e reaparecerem milagrosamente na Igreja de Nossa Senhora da Boa Nova, um prodígio espiritual que contrasta com a frieza burocrática dos documentos oficiais.
Do ponto de vista documental, a construção do Santuário de Nossa Senhora da Assunção da Boa Nova está firmemente datada de meados do século XIV, mais precisamente em 1340, tendo sido mandada erguer na sequência direta da Batalha do Salado, conforme os registos da Câmara Municipal de 2020. A arquitetura religiosa consolida assim uma vitória militar real através de fundações de pedra, enquanto o povo perpetua o sobrenatural através da lenda das algemas do prisioneiro.
Tragédias na raia e a memória dos arquivos
A história de Alandroal não se fez apenas de fundações régias e mitos medievais, albergando também episódios de extrema violência e transformação geopolítica. Um acontecimento trágico de cariz histórico e militar ocorreu a 14 de janeiro de 1659 com a explosão de um armazém de pólvora que vitimou estudantes universitários, conforme assinalam os registos municipais da Câmara Municipal de 2020.
A teia documental do concelho estende-se a arquivos distritais vizinhos que geriram a jurisdição territorial da raia ao longo dos séculos seguintes. Documentos do Arquivo Municipal de Redondo, catalogados pela DGLAB em 2017, registam autos-crime de querela relativos a julgados e ocorrências integradas no território histórico do Alandroal datados concretamente do ano de 1856.
No plano da etnografia contemporânea e da permanência cultural, destaca-se a Festa da Aldeia da Venda, estudada em monografias etnográficas locais como a revista Etnicex / Dialnet em 2014. Esta festividade funciona como um elemento estruturante e vivo da identidade raiana, provando que as comunidades locais continuam a celebrar anualmente as suas raízes ancestrais.
O arquivo vivo da raia alentejana
Hoje, quem percorre o concelho de Alandroal depara-se com uma paisagem onde a pedra das fortificações medievais convive diretamente com a toponímia e as memórias orais transmitidas de geração em geração. As muralhas erguidas entre 1294 e 1298 continuam a dominar a vila, enquanto os recantos associados a João Sirgado e às serpentes da Mina do Bugalho povoam o imaginário coletivo documentado pela Câmara Municipal em 2024.
A preservação destas narrativas em monografias e registos municipais de 2024 garante que o património imaterial não se dissolve com o passar dos séculos. Festas populares como a da Aldeia da Venda, estudada pela Etnicex / Dialnet em 2014, mantêm ativas as dinâmicas sociais da raia, assegurando que o passado histórico e a tradição lendária continuem a explicar a singularidade deste território do Alentejo Central.
Entre a precisão dos forais emitidos em 1486 e o mistério das torres medievais, Alandroal afirma-se como um concelho onde a lenda e o documento escrito não se contradizem, antes se complementam na construção de uma identidade raiana única em Portugal.