Do termo islâmico à fundação régia
A vila de Almodôvar surge registada nos mapas do período de ocupação islâmica com a designação de Al-Mudura, cujo significado etimológico remete para coisa em redondo ou cercada em redondo, conforme sublinha a Câmara Municipal de Almodôvar num estudo publicado em 2010. Esta cronologia islâmica inicial, baseada em fortificações primitivas designadas por 'almudaûár', contrasta com as fontes arqueológicas oficiais que documentam ocupações humanas contínuas desde o Neolítico e Calcolítico nas freguesias de Santa Clara-a-Nova e Gomes Aires, de acordo com os mesmos dados municipais de 2010.
A consolidação do território deu-se anos mais tarde, com a atribuição de uma carta de foral por D. Dinis que data especificamente de 17 de abril de 1285, segundo a Câmara Municipal de Almodôvar (2010). Mais tarde, D. Manuel I concedeu um novo foral à vila em 1 de junho de 1512, confirmando e ampliando as isenções e regalias municipais anteriores, conforme documentado pelo IPBeja em 2010. Estas datas fixam a matriz administrativa da vila muito antes de se cristalizarem as lendas e os contos recolhidos pelas monografias locais.
Em contraste com a planície alentejana que caracteriza grande parte da região, o concelho estende-se até ao Pico do Mú, situado na Serra do Caldeirão dentro dos limites de Almodôvar, onde atinge uma altitude máxima de 577 metros, constituindo a transição geográfica para o relevo serrano do Algarve, segundo dados geográficos de 2021 compilados em Portugal Num Mapa. Esta topografia acidentada serviu de palco natural tanto para o povoamento pré-histórico como para a proliferação de lendas ligadas a tesouros e criaturas fantásticas escondidas nas profundezas da serra.
O guardião subterrâneo do Castelinho
A lenda local do Castelinho perpetua na tradição oral a narrativa de uma moradora idosa do Monte Novo do Castelinho que, ao quebrar a interdição de invocar o nome de Deus perante um homem-lagarto guardião de riquezas subterrâneas, provocou o desaparecimento instantâneo de todo o tesouro, de acordo com o registo divulgado pela Câmara Municipal de Almodôvar em 2020. Esta narrativa fantástica sobreviveu de geração em geração através do boca a boca entre as comunidades serranas, funcionando como um aviso moral contra a cobiça e a quebra de tabus ancestrais.
No entanto, o que a lenda descreve como magia e feitiçaria tem uma contrapartida estritamente científica e material no terreno. As escavações arqueológicas sistemáticas no sítio das Mesas do Castelinho, cuja lenda do homem-lagarto serve de elemento de animação cultural, decorrem de forma continuada desde a década de 1980, sob a tutela e registo oficial da Câmara Municipal de Almodôvar em 2020. Ao contrário do tesouro evaporado da ficção, as escavações revelaram estruturas urbanas de grande relevância histórica que moldam a identidade patrimonial do concelho.
A profundidade histórica do concelho é ainda atestada por outro tesouro bem real e documentado: a recolha de estelas epigráficas com Escrita do Sudoeste — considerada a escrita mais antiga da Península Ibérica, datada entre os séculos VIII e V a.C. — encontra-se exposta no Museu da Escrita do Sudoeste em Almodôvar, segundo os serviços municipais de 2010. Este espólio milenar contrasta fortemente com a cronologia medieval das lendas de fundação cristã, provando que a serra almodovarense era já um ponto nevrálgico de comunicação séculos antes da era cristã.
Entre a lenda da Vila Negra e os arquivos de pedra
A leitura mais óbvia do senso comum tenderia a assumir que as lendas de Almodôvar, como a do Homem-Lagarto ou a da Vila Negra, são puros contos de fantasia popular sem qualquer ponto de contacto com a materialidade histórica ou com os registos de arquivo institucional. A lenda da fundação alternativa de Almodôvar, conhecida como a lenda da Vila Negra, fundamenta-se na tradição oral associada à proteção milagrosa da imagem de Jesus do Calvário contra cavaleiros salteadores de fora da região, conforme inventariado em 2021 pela plataforma Portugal Num Mapa.
Contudo, os documentos da Câmara Municipal de Almodôvar e os relatórios arqueológicos do sítio das Mesas do Castelinho demonstram que estas narrativas orais não são meras invenções isoladas, servindo antes de âncora direta à valorização e à preservação patrimonial de estações arqueológicas reais escavadas desde a década de 1980, conforme atesta a autarquia em 2020. As variantes historiográficas e monográficas sobre o concelho, coligidas na Monografia da Vila de Almodôvar de António J. Gonçalves com o impulso de Raul Fernando Gonçalves, cruzam a documentação paroquial com o inventário de contos recolhidos junto da população serrana, conforme a edição de 2015 do Instituto Superior de Ciências Complementares e Artes Aplicadas.
A separação entre a tradição oral e o registo escrito torna-se evidente quando se analisam os monumentos de pedra da vila. A Igreja Matriz de Almodôvar, dedicada a Santo Ildefonso, foi alvo de doação por D. Dinis à Ordem de Santiago no ano de 1297, segundo a Câmara Municipal de Almodôvar (2021). O projeto arquitetónico da atual igreja foi posteriormente traçado pelo arquiteto Nicolau de Frias no ano de 1592, enquanto a capela-mor foi objeto de uma remodelação ordenada por D. João V através do Tribunal da Mesa da Consciência e Ordens, descrita pelo Padre Luís Cardoso no ano de 1747.
Conventos, decretos e o peso da pedra
A materialidade histórica de Almodôvar não se esgota na sua Igreja Matriz, encontrando-se firmemente ancorada em atos administrativos e diplomas legais que sobrevivem nos arquivos nacionais. A própria Igreja Matriz de Almodôvar foi formalmente classificada como Monumento de Interesse Público através da Portaria n.º 450/2012, publicada a 3 de setembro de 2012 pela Direção-Geral do Património Cultural, conferindo proteção legal a um edifício cuja génese remonta aos finais do século XIII.
A esta infraestrutura religiosa aliam-se outros polos de saber histórico no concelho. O Convento de Nossa Senhora da Conceição, também designado por Convento de São Francisco em Almodôvar, foi fundado no ano de 1680 e albergou uma instituição de ensino teológico de âmbito regional no Baixo Alentejo, de acordo com os registos do IPBeja de 2010. Este convento expandiu a influência cultural da vila, contrastando com o isolamento das comunidades serranas que alimentavam as lendas das mouras encantadas e dos tesouros subterrâneos.
A articulação entre os documentos escritos e a tradição oral demonstra que o território funcionava como uma fronteira de trocas e mitos. Enquanto os tabeliães reais registavam foros e doações em pergaminhos selados a cera, os habitantes dos montes serranos adaptavam a paisagem agreste — marcada por declives de quase 600 metros de altitude como o Pico do Mú — a uma mitologia própria de guardiões invisíveis e milagres protetores contra salteadores.
O eco dos mitos na paisagem contemporânea
Hoje, o concelho de Almodôvar mantém viva esta dupla herança através da animação cultural baseada no sítio das Mesas do Castelinho, escavado continuamente desde a década de 1980 pela autarquia local, e da conservação do património epigráfico no Museu da Escrita do Sudoeste, inaugurado com base nos achados arqueológicos documentados em 2010. As narrativas do homem-lagarto e da Vila Negra deixaram de ser apenas contos de assombração para se transformarem em ferramentas pedagógicas de atração cultural.
A paisagem que outrora inspirou o medo de invocar divindades perante guardiões subterrâneos é hoje percorrida por investigadores e visitantes que cruzam a Serra do Caldeirão a partir dos limites de Almodôvar. Os marcos históricos — desde o foral manuelino de 1 de junho de 1512 até à portaria de proteção de 2012 — asseguram que a pedra e o pergaminho continuam a fundamentar a realidade tangível do território alentejano.
A persistência destas lendas na memória coletiva, documentada nas monografias locais de António J. Gonçalves e Raul Fernando Gonçalves publicadas em 2015, prova que o passado de Almodôvar sobrevive tanto nos relatórios científicos das escavações arqueológicas como nas vozes que, de monte em monte, continuam a contar histórias de tesouros sob a serra.