O caminho subterrâneo

A cerca de três quilómetros de distância do Castelo de Alter do Chão, classificado como Monumento Nacional por decreto oficial em 1910 (DGPC), ergue-se o Castelo de Alter Pedroso. É entre estas duas estruturas que a tradição oral, recolhida em registos etnográficos como o Miosotis (2017), localiza um túnel subterrâneo histórico. A existência desta passagem, embora nunca confirmada por escavações arqueológicas modernas, permanece viva no imaginário dos habitantes, servindo como um fio condutor que une fisicamente dois pontos de defesa medieval.

A persistência desta narrativa num território que, segundo os Censos do INE (2021), conta com apenas 3.164 habitantes, revela a importância da transmissão oral em zonas de isolamento demográfico. Enquanto o Castelo de Alter do Chão domina a paisagem urbana, o de Alter Pedroso, classificado como Imóvel de Interesse Público em 1967 (DGPC), funciona como o cenário de mistérios que desafiam a lógica da engenharia militar da época. A distância de três quilómetros entre ambos é, na lenda, percorrida por corredores que teriam servido de refúgio em tempos de cerco.

Para além da estrutura física, a lenda de Alter Pedroso ganha contornos fantásticos com a figura de uma serpente guardiã. Segundo a recolha da Miosotis (2017), este ser vigia o portão gótico da fortaleza, atacando qualquer transeunte que se aproxime de olhos abertos. Esta narrativa, que se afasta dos registos oficiais, funciona como um mecanismo de interdição, desencorajando a exploração das ruínas e preservando, por via do medo, a integridade do que resta do património edificado no concelho.

Rituais e o futuro amoroso

Junto ao traçado lendário do túnel, a tradição oral aponta para a Cova da Moura Encantada, um local associado a rituais de passagem e interdições amorosas (Miosotis, 2017). Este espaço não é apenas um marco geográfico, mas um ponto de encontro entre o sobrenatural e a vida quotidiana das gerações passadas. A lenda estipulava que as raparigas da terra deveriam executar um salto sobre o buraco para prever o seu futuro amoroso, um ato que carregava o risco de uma desgraça caso o obstáculo não fosse superado.

Este costume, embora hoje esbatido, reflete uma estrutura social onde a superstição servia de bússola para as incertezas da vida. A comparação com outras regiões de Portugal, onde o culto das mouras encantadas está frequentemente ligado a fontes ou penedos, mostra que Alter do Chão partilha de um património imaterial comum, mas com especificidades locais marcadas pela topografia do Alto Alentejo. A conservação destes marcos é, contudo, um desafio, dada a despesa municipal executada na área da cultura e património, conforme os dados da DGAL (2022).

A toponímia local também preserva vestígios desta devoção e memória. A Rua de S. Sebastião, por exemplo, guarda a lembrança da antiga ermida do Senhor Jesus do Outeiro, um local ligado a relatos de milagres e devoção popular (Miosotis, 2017). Estes nomes de ruas não são meras designações administrativas, mas camadas de história que sobrevivem à erosão do tempo, ligando o presente dos 3.164 habitantes aos séculos em que a religiosidade e o mito eram os pilares da coesão comunitária.

O que dizem os documentos

Ao separar a lenda do registo histórico, encontramos uma realidade bem mais austera. Enquanto o mito fala de serpentes e túneis, as Ordenações Afonsinas de 1446 documentam conflitos reais de abusos de apascentamento e alojamento forçado impostos pela nobreza aos camponeses locais. Esta documentação oficial revela que a opressão, muitas vezes transfigurada na lenda em figuras fantásticas, era, na verdade, uma luta quotidiana pela sobrevivência e pela posse da terra no Alentejo medieval.

A fundação de Alter do Chão tem, por sua vez, raízes documentadas que remontam à antiga cidade romana de Abelterium, referenciada no Itinerário de Antonino Pio (Freguesia de Alter do Chão, 2023). Este registo histórico oficial oferece uma base sólida que contrasta com as narrativas míticas de fundação. O processo de restauração e repovoamento medieval, formalmente proposto pelo Bispo da Guarda, D. Vicente, durante o reinado de D. Sancho II, marca o início de uma nova era para o concelho, distanciando-o das lendas de mouras.

Esta distinção é fundamental para compreender a identidade de Alter do Chão. O mito da serpente e do túnel, embora fascinante, funciona como uma lente que distorce, mas também protege, a memória de um passado marcado por tensões jurídicas e de poder feudal severo. A transição entre o registo cronístico e a tradição oral permite ver que, por trás de cada lenda, existe quase sempre uma necessidade humana de explicar o sofrimento, a injustiça ou a própria origem de uma comunidade que se recusa a desaparecer.

O desafio da memória

A preservação destas histórias enfrenta hoje um obstáculo demográfico severo. Com um índice de envelhecimento de 255,2 idosos por cada 100 jovens, segundo dados da PORDATA (2021), a transmissão comunitária direta de lendas está em risco. A quebra na renovação geracional, evidenciada por uma taxa de natalidade de 5,2 por mil habitantes (PORDATA, 2021), significa que os contadores de histórias estão a desaparecer, levando consigo variantes orais que nunca foram transcritas em monografias exaustivas.

No contexto do distrito de Portalegre, que viu a sua população total decrescer para 104.923 habitantes (INE, 2021), Alter do Chão reflete uma tendência regional de perda de dinâmica demográfica. Este cenário de isolamento, embora propício à persistência de tradições orais durante séculos, torna-se agora um fator de vulnerabilidade para a conservação do património imaterial. Sem uma política de registo sistemático, o risco de que estas lendas se tornem apenas referências vagas em documentos oficiais é elevado.

A comparação com outros concelhos do Alentejo mostra que esta é uma luta partilhada. A conservação física dos marcos lendários, como os castelos, depende de investimento local, mas a conservação da memória depende da vitalidade da comunidade. Quando a estrutura social se altera, a forma como as lendas são contadas e vividas também muda, passando de uma crença partilhada para um objeto de estudo ou curiosidade turística, perdendo a sua função original de explicar o mundo.

O que resta no presente

Hoje, quem visita Alter do Chão encontra um concelho onde a história e o mito se cruzam nas pedras dos seus castelos. O Castelo de Alter do Chão, Monumento Nacional desde 1910, e o Castelo de Alter Pedroso, Imóvel de Interesse Público desde 1967, permanecem como testemunhas silenciosas de séculos de conflitos e lendas. A manutenção destes espaços é um esforço contínuo, mas o que realmente define a identidade do concelho é a capacidade de manter vivas as histórias que, mesmo sem confirmação arqueológica, dão alma ao território.

Apesar da escassez de inquéritos etnográficos oficiais dedicados especificamente à serpente de Alter Pedroso, a presença destas narrativas no quotidiano é inegável. O que resta hoje é um legado que sobrevive na memória dos mais velhos e na curiosidade de quem procura entender o que se esconde para lá da história oficial. A lenda, ao contrário do documento, não precisa de provas para ser verdadeira; precisa apenas de alguém que a conte e de um lugar onde ela possa continuar a habitar.

O futuro da memória em Alter do Chão dependerá de como o concelho equilibrará a conservação do seu património edificado com a valorização do seu património imaterial. Enquanto os números do INE e da PORDATA apontam para desafios demográficos, a persistência destas lendas demonstra que a identidade de um povo é mais resiliente do que as estatísticas sugerem. O túnel entre os castelos pode ser apenas um mito, mas a ligação entre o passado e o presente é, sem dúvida, real.