A fuga de Roma até às margens do Caia
As paredes brancas e a altivez militar de Arronches, no Alto Alentejo, guardam na tradição oral uma origem rocambolesca que recua até à Antiguidade Clássica. Segundo monografias locais publicadas em 2017, a fundação mítica da povoação é atribuída ao ano 39 da era cristã por via de um nobre romano chamado Licínio Balbo. O patrício ter-se-ia visto obrigado a abandonar a capital do império após um episódio insólito protagonizado pelo imperador Calígula, que ordenara aos senadores queentassem numa ceia formal ao lado do seu cavalo predilecto, o célebre animal Incitatus.
A narrativa popular moldou esta escapadela aristocrática como o primeiro alicerce da localidade raiana, conferindo-lhe um estatuto fundacional de cariz imperial que ecoa nas conversas dos mais antigos. A paisagem de transição entre o rio Caia e a ribeira de Arronches serviu de palco a esta transposição mitológica de heróis romanos para o solo alentejano. Contudo, cruzar esta lenda com a realidade historiográfica exige abandonar os caprichos de Calígula para mergulhar nos rigorosos registos das chancelarias medievais e nos vestígios arqueológicos da região.
Longe dos paços imperiais romanos, o subsolo e a pedra da região contam uma história bem mais recuada e material através do Complexo de Arte Rupestre da Esperança. Este núcleo arqueológico tem sido alvo de projectos científicos plurianuais desenvolvidos em articulação com a Universidade de Évora e a autarquia local, procurando inventariar e salvaguardar marcas muito anteriores à própria fundação mítica de Licínio Balbo. As escavações e estudos contam com o contributo pioneiro de figuras internacionais como o abade Henri Breuil, que examinou estas estações pré-históricas no início do século XX.
A sombra da moura e o foral do monarca
A par da fundação romana, o imaginário coletivo de Arronches fertilizou-se com figuras lendárias ligadas ao período muçulmano, destacando-se a lenda da 'Pedra da Moura'. De acordo com registos do Arquivo do Norte Alentejano de 2010, esta figura sobrenatural habita a área de transição hídrica entre o rio Caia e a ribeira de Arronches, personificando uma princesa moura transformada em pedra por rejeitar um casamento forçado pelo progenitor. Nas noites de São João, segundo a mesma tradição oral catalogada por associações de solidariedade social em 2005, a figura manifesta-se entoando canções de lamento, um fenómeno evitado pela população local devido a restrições e tabus ancestrais.
Em contraponto a estas presenças lendárias, os factos documentais registados pela Câmara Municipal de Arronches em 2022 estabelecem que a reconquista definitiva da praça aos mouros ocorreu em 1242, pelas mãos de D. Paio Peres Correia. O salto cronológico face aos mitos de fundação romana é evidente, distanciando a lenda da realidade militar da Reconquista. Logo em 1255, D. Afonso III concedeu o primeiro foral à vila, estabelecendo a base jurídica medieval para a consolidação administrativa deste território raiano que hoje confina com o distritos de Portalegre e a fronteira espanhola.
A consolidação do poder régio traduziu-se rapidamente em pedra e pergaminho ao longo do século XIII e seguintes. O foral inicial foi alvo de confirmação posterior em 1272 pelo mesmo monarca, e mais tarde renovado por D. Manuel I em 1512, no âmbito da vasta reforma geral dos forais do reino. No plano da infraestrutura militar documentada, o castelo da vila foi alvo de obras de beneficiação e restauro ordenadas por D. Dinis no ano de 1310, garantindo a defesa de uma praça que viria a assumir enorme relevo geopolítico na raia.
Entre o mito da espada e o rigor do arquivo
A leitura mais óbvia do senso comum tenderia a assumir que as lendas de fundação romana e as narrativas de mouras encantadas em Arronches possuem correspondência direta nos registos cronológicos oficiais das chancelarias régias medievais. Contudo, os factos documentais provam que a transição do domínio muçulmano para o cristão ocorreu de forma abrupta e documentada apenas em meados do século XIII, entre 1242 e 1255, distanciando os mitos fundacionais criados pela tradição oral das evidências administrativas e dos forais concedidos à vila.
A perda de grande parte do arquivo histórico municipal de Arronches ao longo dos séculos, documentada por estudos publicados num repositório universitário em 2020, deixou lacunas profundas que foram parcialmente colmatadas por registos eclesiásticos de baptismos, casamentos e óbitos guardados no Arquivo Distrital de Setúbal e em fundos de Misericórdias. Esta escassez documental local intensificou a dependência da tradição oral para explicar a génese da terra, gerando narrativas paralelas que os historiadores hoje conseguem separar com precisão dos diplomas régios.
Apesar da erosão documental, Arronches alcançou privilégios jurídicos raríssimos no panorama nacional que constam de forma inequívoca nos arquivos. Em 1678, o concelho obteve de D. Pedro II a concessão de um 'foral novíssimo', um estatuto de exceção atribuído a um número muito restrito de localidades portuguesas para premiar a fidelidade e o esforço de guerra na defesa da fronteira.
A forte praça de armas e a terra dos porcos
A importância estratégica de Arronches ultrapassou largamente as fronteiras locais, merecendo mesmo o aplauso imortal da literatura nacional. O cronista e rei d'Os Lusíadas, Luís de Camões, consagrou epítetos de destaque à localidade nas suas estâncias poéticas, referindo-se explicitamente à 'forte Arronches' devido à robustez da sua praça-forte militar e à bravura dos seus defensores face aos assaltos castelhanos.
Esta centralidade política e militar ficou vincada no ano de 1475, quando os registos históricos comprovam que D. Afonso V escolheu Arronches para reunir Cortes régias com o objetivo central de debater o seu matrimónio com a princesa espanhola D. Joana. Num concelho onde se decidiam alianças matrimoniais coroadas, a cultura popular soube simultaneamente preservar alcunhas de cariz pitoresco que sobrevivem na gíria regional.
A toponímia popular e a gíria designam informalmente Arronches como a 'Terra dos Porcos', uma alcunha fundamentada, segundo a autarquia em 2022, numa lenda pastoril sobre a autonomia e a fidelidade do gorfim e dos porcos locais. A narrativa popular defende que os animais regressavam sozinhos às pocilgas sem necessidade de condução humana, espelhando a simbiose entre o homem rural alentejano e o maneio pecuário tradicional.
O eco das muralhas na paisagem de hoje
Caminhar hoje pelas ruas de Arronches é tropeçar constantemente nestas duas camadas sobrepostas de tempo: de um lado, o peso documental das muralhas erguidas por D. Dinis em 1310 e dos privilégios de 1678; do outro, o eco longínquo das mouras que choram na ribeira nas noites de São João e a lembrança jocosa da 'Terra dos Porcos'. No levantamento regional de literatura oral do Alentejo publicado pelo Diário do Alentejo em 2019, foram catalogadas 47 lendas principais para o conjunto dos concelhos da região, mapeando variações temáticas onde Arronches ocupa um lugar singular pela persistência dos seus mitos de fundação.
Enquanto as escavações arqueológicas coordenadas com a Universidade de Évora continuam a perscrutar o Complexo de Arte Rupestre da Esperança para além da romanização mítica de Licínio Balbo, o património edificado resiste ao tempo. As marcas das Cortes de 1475 convocadas por D. Afonso V fundem-se na malha urbana com a herança dos forais manuelinos e com o traçado militar que inspirou Camões a cantar a fortaleza raiana.
A separação entre a lenda da fuga ao cavalo de Calígula e a realidade da reconquista de 1242 por D. Paio Peres Correia não empobrece o concelho; antes pelo contrário, confere-lhe a espessura de um território que soube inventar mitos para explicar a dureza da sua sobrevivência na raia e guardar nos arquivos a astúcia dos seus forais seculares.