O monstro e o ardil
A tradição oral de Beja, recolhida em projetos educativos e etnográficos, como os catalogados pela Escola Superior de Educação de Beja em 2012, descreve um tempo em que uma serpente colossal dominava os campos, impedindo a vida normal dos habitantes. A solução, segundo a lenda fundacional detalhada pela Câmara Municipal de Beja em 2019, não veio de uma espada, mas de um ardil: um touro, propositadamente envenenado, foi deixado no matagal para que o monstro o devorasse, perecendo logo de seguida.
Esta narrativa, que circula de geração em geração, não é um caso isolado de folclore alentejano, mas uma peça central da identidade do concelho. Enquanto em outras regiões de Portugal as lendas de mouras encantadas dominam o imaginário, em Beja é a figura do touro que se destaca. A persistência desta história, que inclui variantes onde rebanhos inteiros intervêm na derrota da criatura, demonstra como a comunidade integrou o mito na sua própria sobrevivência e quotidiano.
A força desta lenda é tal que, em 2013, projetos de intercâmbio escolar como o Comenius levaram versões ilustradas desta história a sete países europeus, dando a conhecer a mitologia bejense além-fronteiras. O que torna esta história fascinante não é apenas o seu conteúdo fantástico, mas a forma como ela se entrelaça com a realidade geográfica e histórica de um território que, desde 49 a.C., quando Júlio César estabeleceu Pax Julia, tem sido um ponto estratégico de encontro de culturas e civilizações.
A evidência na pedra
A ligação de Beja ao touro não é uma invenção tardia, mas um facto documentado que remonta à segunda metade do primeiro milénio a.C. Descobertas arqueológicas recentes na zona de Cinco Reis, no concelho de Beja, revelaram a existência do Touro Votivo de Cinco Reis, um elemento totémico que atesta a importância desta figura muito antes da fundação da cidade romana. Este achado, reportado pelo Município de Beja em 2023, coloca a iconografia taurina no centro da cultura pré-romana da região.
Séculos mais tarde, o humanista André de Resende, na sua obra 'As Antiguidades da Lusitânia' (1561), descreveu a existência de dez cabeças de touro sobreviventes do período romano em Beja. Este registo, citado pelo Município de Beja em 1561, serve como prova documental de que o símbolo já era central na cidade há quase 500 anos. A presença destas peças não era meramente decorativa, mas uma afirmação de poder e identidade que atravessou a transição entre a ocupação romana e a medieval.
Hoje, o brasão oficial do concelho de Beja, conforme confirmado pela Câmara Municipal em 2021, mantém a representação da cabeça de um touro. Esta escolha heráldica não é casual; ela liga diretamente a narrativa lendária da fundação ao passado pré-romano e romano. Comparando com outros concelhos alentejanos, onde os brasões refletem frequentemente elementos geográficos ou religiosos, Beja destaca-se por manter uma ligação direta a um símbolo totémico milenar que sobreviveu a todas as mudanças de regime.
Entre o mito e o registo
É fundamental distinguir o que é tradição oral do que é registo histórico. Enquanto a lenda da serpente e do touro envenenado é uma construção mítica que explica a fundação, o registo histórico é dado por documentos como o foral atribuído por D. Afonso III em 1254. Este documento, preservado na Chancelaria Régia, marca o início da reconstrução do castelo e das muralhas após a instabilidade da Reconquista, estabelecendo a base administrativa e defensiva da Beja medieval.
A historiografia oficial, contrastada com o folclore recolhido nas monografias distritais e preservado no Arquivo Distrital de Beja (2015), mostra que a cidade sempre viveu nesta dualidade. Se por um lado temos os decretos de classificação do Castelo de Beja como Monumento Nacional em 1910, por outro temos as narrativas de luzes misteriosas que, segundo investigadores da Universidade de Évora em 2015, acompanhavam almocreves e camponeses à noite, preenchendo o vazio da história oficial com o imaginário popular.
A ciência arqueológica e a documentação régia, como a construção da Torre de Menagem por D. Dinis em 1310, fornecem a estrutura física, mas é a tradição oral que confere alma ao território. Enquanto o foral de 1254 define os limites administrativos, a lenda da serpente define os limites da identidade cultural. Esta separação é clara: o documento prova a existência da cidade e das suas muralhas, mas é a lenda que explica por que razão os bejenses se identificam com a força e a resistência do touro.
A sentinela de pedra
O Castelo de Beja, com a sua imponente Torre de Menagem, é o cenário onde estas memórias se cruzam. Com 40 metros de altura e 183 degraus na sua escada em caracol, segundo dados da Câmara Municipal de Beja de 2024, a torre não é apenas uma estrutura defensiva, mas um marco visual que domina a paisagem do Baixo Alentejo. A sua construção, iniciada por D. Dinis em 1310, integrava a praça num plano régio de fortificação de fronteira, essencial para a segurança do reino.
A conservação deste património tem sido uma prioridade, com obras de intervenção executadas pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais em 1938, que permitiram desobstruir as portas históricas de Évora e de Avis. Estas intervenções, documentadas pela DGEMN, garantiram que a estrutura física do castelo permanecesse intacta, permitindo que as gerações atuais possam percorrer os mesmos espaços que, séculos antes, foram palco de estratégias militares e de contos populares que ainda hoje ecoam nas ruas da cidade.
A importância estratégica de Beja, desde a fundação de Pax Julia em 49 a.C., é comparável à de outras grandes praças-fortes da Península Ibérica. Contudo, a forma como Beja integrou o seu passado romano e medieval com a mitologia local é única. Enquanto outros castelos são vistos apenas como monumentos, o de Beja é visto como um repositório de memórias, onde cada pedra parece guardar um fragmento da lenda que deu origem à cidade, mantendo viva a ligação entre o passado remoto e o presente.
O legado no presente
Hoje, a lenda do touro e da serpente não está confinada aos livros de história ou aos arquivos. Ela vive na arte contemporânea, como no espólio do escultor Jorge Vieira, que instalou em Beja peças de inspiração mitológica e taurina no ano 2000. Esta intervenção, promovida pelo Município de Beja, perpetua a ligação da cidade à sua lenda fundacional, traduzindo-a numa linguagem moderna que dialoga com os habitantes e visitantes que percorrem as praças e jardins da cidade.
O Arquivo Distrital de Beja continua a ser o local onde esta história é preservada, com fundos documentais que focam não apenas nas crónicas históricas, mas também no folclore local. A exposição temática destas figuras, documentada em 2015, mostra que a cidade valoriza tanto o seu registo administrativo quanto a sua tradição oral. É esta combinação que torna Beja um concelho onde o passado não é algo estático, mas uma presença viva que informa o presente e inspira o futuro.
Ao caminhar pelas ruas de Beja, é possível sentir que a história da serpente e do touro é mais do que uma curiosidade; é um elemento de coesão social. Seja através da iconografia no brasão, das esculturas de Jorge Vieira ou das memórias partilhadas nas escolas, o mito continua a cumprir a sua função original: dar sentido à existência de um povo que, ao longo de séculos, soube transformar o medo de um monstro na força de um símbolo que, ainda hoje, define a identidade de todo um concelho.