O monstro do matagal

A lenda fundacional de Beja relata a existência de um povoado primitivo composto por cabanas de colmo, inteiramente rodeado por um matagal denso e impenetrável onde habitava uma serpente colossal. Segundo os registos divulgados pelo portal Mais Beja em 2026, esta criatura representava uma ameaça constante, dizimando impiedosamente os caçadores locais que se arriscavam a cruzar os trilhos daquela vegetação bravia.

Para aniquilar o monstro, a estratégia popular engendrada exigiu engenho e coragem extrema, consistindo em envenenar um touro robusto e abandoná-lo propositadamente na floresta para ser devorado pela serpente, conforme detalhado num estudo publicado em 2012 no blogue Olhar Sobre Adiça. Este estratagema mortal culminou na eliminação da ameaça que aterrorizava a região e moldou para sempre a identidade visual do burgo.

Esta narrativa mítica serve precisamente para justificar a inclusão secular da cabeça de um touro no brasão e nas armas históricas da cidade de Beja, conforme atestado por compilações publicadas na Wikipédia em 2021. Num território que cobria 1.106,44 quilómetros quadrados e albergava 33.401 habitantes em 2021, segundo dados oficiais do INE compilados pela mesma enciclopédia, o símbolo taurino transcende o mero ornamento heráldico, ligando a administração municipal contemporânea a uma raiz mítica de séculos.

Dez cabeças de pedra

A antiguidade deste símbolo na urbe alentejana não nasceu na Idade Média, encontrando-se documentada de forma indelével na obra 'As Antiguidades da Lusitânia', escrita no século XVI pelo humanista André de Resende. O insigne autor registou a existência concreta de dez cabeças de touro sobreviventes do período romano em Pax Julia, provando que o significado tauromáquico da cidade antecedia largamente a fixação escrita das lendas populares.

Aprofundando esta linha temporal, descobertas arqueológicas modernas concretizadas na zona de Cinco Reis comprovaram inequivocamente a existência de um touro votivo. De acordo com informações institucionais divulgadas pelo Município de Beja em 2022, este espólio demonstra que a ligação totémica do território à figura taurina remonta a milénios antes da fundação oficial do aglomerado urbano, validando a tese de que o mito é uma sobreposição a um culto pré-existente.

A evolução histórica e cultural do concelho consolidou-se através de quatro civilizações principais que deixaram espólios e vestígios materiais incontestáveis: a romana, a visigótica, a islâmica e a cristã medieval, conforme atestado em documentos técnicos do Instituto Politécnico de Beja publicados em 2023. Esta sobreposição de culturas explica a complexidade do património local, muito para além da herança puramente clássica, integrando as quatro eras na identidade da cidade.

Beja, Beja
Beja, BejaGoogle Places · iDas

Vozes de escola e fontes mouriscas

A tradição oral sobreviveu de forma capilar através das gerações, tendo o projeto educacional europeu Comenius documentado pelo menos nove versões distintas da lenda do touro e da cobra, recolhidas diretamente em escolas de Beja e catalogadas num documento de 2012 alojado na plataforma Scribd. Uma das variantes recolhidas por este projeto escolar afasta-se do mito clássico do envenenamento, descrevendo em alternativa que a cidade foi salva por uma manada furiosa de touros que exterminou coletivamente a serpente.

A par desta narrativa taurina, outra vertente oral catalogada refere-se especificamente à lenda da Fonte Mouro, situada a nordeste da cidade e associada a uma horta que pertenceria a um mouro chamado Albutassén e à sua filha Aldonça, segundo apontamentos do blogue Aldeagar publicados em 2007. Esta mesma lenda inclui elementos de um amor trágico entre a jovem moura Aldonça e um jovem cristão chamado Atanásio, espelhando fielmente o sincretismo cultural vivido durante o período da Reconquista.

A perenidade destas narrativas foi recentemente inventariada pelo escritor Fernando José dos Santos Graça, que catalogou a lenda da Fonte do Mouro de Beja na sua recolha de lendas tradicionais do Alentejo, dada à estampa em 2021 e destacada num artigo do portal Infocul. Do mesmo modo, recolhas etnográficas do Arquivo Português de Lendas, citadas em análises linguísticas de 2024, apontam que as narrativas de mouras encantadas associadas a fontes no distrito servem frequentemente para explicar a própria toponímia local, fixando na memória coletiva a origem dos nomes dos lugares.

A separação entre o mito e a pedra

A leitura mais óbvia assumiria com facilidade que a lenda do touro e da cobra em Beja constitui apenas uma invenção folclórica medieval tardia, destituída de qualquer ligação material ao passado profundo da cidade. Contudo, esta premissa desmorona-se face aos factos arqueológicos concretos, como o touro votivo descoberto em Cinco Reis em 2022 e os registos romanos compilados por André de Resende no século XVI.

Estes elementos materiais provam cabalmente que a simbologia taurina antecede largamente os mitos recolhidos oralmente nas escolas ou registados em coletâneas modernas, sugerindo com forte evidência que a lenda nasceu afinal para justificar um culto totémico pré-existente na antiga Pax Julia. A tradição oral funcionou, portanto, como um mecanismo de preservação de memórias cuja génese se perdeu na noite dos tempos.

O folclore do concelho estende-se ainda a manifestações de cariz insólito, como o registo na zona de Beringel de uma tradição oral sobre 'uma luz misteriosa' vermelha que perseguia almocreves e populares durante a noite, conforme inventariado num estudo etnográfico local publicado em 2019 no blogue As coisas de que eu gosto!. Estes fenómenos, que contam com décadas de transmissão oral, demonstram a riqueza de um imaginário coletivo que povoou historicamente os caminhos e fontes do território, para além das narrativas oficiais de fundação documentadas até 2023.

Pelourinho de Beja, Beja
Pelourinho de Beja, BejaGoogle Places · 張煜輝

A herança na praça e no cinzel

A carga mítica e tauromáquica de Beja não ficou confinada aos compêndios de literatura oral ou aos achados arqueológicos subterrâneos, encontrando expressão física na arte contemporânea através da obra do escultor Jorge Vieira. O artista desenvolveu peças e intervenções artísticas em Beja inspiradas diretamente nesta mitologia local, num trabalho de valorização cultural homenageado pelo Município de Beja em 2022.

Hoje, quem caminha pela cidade de Beja depara-se com ecos desta dualidade entre o passado romano e o folclore medieval, visíveis tanto na herança heráldica das suas instituições como nas denominadas fontes e toponímias associadas a antigas mouras encantadas, documentadas em análises de 2024. O território mantém viva uma malha de memórias que continua a atrair a atenção de investigadores e curiosos, consolidando a importância de preservar o espólio imaterial.

A persistência destas narrativas em escolas, monografias e projetos educativos europeus de 2012 garante que a serpente e o touro continuam a habitar o imaginário coletivo dos 33.401 habitantes recenseados pelo INE em 2021. Longe de constituírem meras recordações do passado, estas lendas explicam a forma como a comunidade de 1.106,44 quilómetros quadrados continua a olhar para a sua própria paisagem e identidade, integrando o mito no quotidiano da cidade.