Da videira lendária ao primeiro foral
A lenda popular perpetuada ao longo de gerações atribui a origem do nome da vila a uma videira milagrosa ou à expressão geográfica 'Vila Devide', por se situar na divisão de fronteiras. Contudo, os vestígios documentais mais recuados divergem por completo destas narrativas orais recolhidas pela comunidade. De acordo com o Município de Castelo de Vide, a primeira menção oficial à povoação surge grafada como 'castello da vide' em 1233, ano em que foi emitida a respetiva carta de foral destinada a Tonhe.
Este documento pioneiro demonstra que a fundação e a designação do lugar responderam a necessidades administrativas e de fixação populacional bem concretas, distantes de qualquer milagre vegetal. A expansão demográfica e a urgência de segurar a linha de confrontação territorial determinaram que o território ganhasse estatuto próprio face aos núcleos vizinhos, nomeadamente o termo de Marvão, que exercia influência sobre a região envolvente.
A autonomia jurídica face a Marvão materializou-se formalmente em 1276, através de um ato de doação e desvinculação que ficou devidamente registado na chancelaria do infante D. Afonso e do rei D. Afonso III, conforme atestam os registos preservados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo. Este passo administrativo cimentou a independência política do concelho, provando que a consolidação da vila se deveu a manobras da coroa e da nobreza e não a lendas populares.
De lugar chão a praça fortificada
Durante séculos, a narrativa oral transmitida oralmente retratava Castelo de Vide como uma praça fortificada inexpugnável desde os primórdios da Reconquista cristã. No entanto, a realidade histórica descrita pelas fontes escritas da época é consideravelmente distinta. O cronista-mor Rui de Pina registou na sua Crónica de D. Dinis que, no ano de 1299, o sítio era ainda caracterizado como um 'lugar mais chão que forte', demonstrando a vulnerabilidade militar inicial da povoação.
Foi precisamente perante essa debilidade estratégica que o rei D. Dinis ordenou a reedificação da cerca urbana e da imponente torre de menagem, transformando o aglomerado desprotegido numa fortificação capaz de dissuadir incursões externas. A adaptação militar aproveitou o relevo acidentado do maciço quartzítico da serra de São Mamede, um aspeto documentado anos mais tarde, em 1509, pelo escudeiro e desenhador régio Duarte d'Armas no seu célebre Livro das Fortalezas.
As ilustrações e descrições de Duarte d'Armas revelam como as muralhas medievais foram desenhadas em perfeita simbiose com a geologia local, maximizando as defesas naturais da serra. Esta infraestrutura militar sofreu novas remodelações estruturais quando o rei D. Manuel I outorgou a Castelo de Vide a Carta de Foral Novo a 1 de junho de 1512, um diploma guardado no Arquivo Nacional da Torre do Tombo que redefiniu as rendas régias e os direitos dos moradores.
O pastor, a ermida e os registos episcopais
A tradição local relata com fervor que a Ermida de Nossa Senhora da Penha apenas pôde ser erguida no cume da serra após uma aparatosa aparição milagrosa a um pastor e sucessivas sabotagens noturnas que destruíam os materiais de construção sempre que tentavam levantá-la em cotas mais baixas. Esta narrativa de cariz milagroso contrasta diretamente com a burocracia eclesiástica da época, documentada de forma inequívoca nos arquivos históricos.
O Livro de Tombo do Arquivo Municipal regista com precisão que a 24 de março de 1570 foi emitida a respetiva licença canónica passada pelo Bispo de Portalegre, autorizando formalmente a construção do altar e a celebração da primeira missa no local. Este documento anula a exclusividade explicativa da lenda do pastor, enquadrando a edificação do templo numa política diocesana deliberada de expansão e controlo espiritual da paisagem serrana.
Apesar da enorme relevância que este património imaterial e religioso detém para a identidade do concelho, o procedimento administrativo de classificação da Ermida de Nossa Senhora da Penha acabou por caducar ao abrigo do Decreto-Lei n.º 309/2009 e do Decreto-Lei n.º 265/2012. Esta caducidade administrativa deixou o templo sem qualquer proteção jurídica nacional individualizada, sob a tutela da Direção-Geral do Património Cultural, mostrando a distância entre a devoção popular e a frieza dos decretos modernos.
Da água lendária ao termalismo do século XX
No coração da judiaria histórica, a Fonte da Vila constitui um monumento renascentista que serve há gerações como polo de lendas urbanas sobre o convívio inter-religioso e propriedades milagrosas. A importância histórica e arquitetónica deste espaço levou o Governo de Portugal a classificá-lo formalmente como Imóvel de Interesse Público através do Decreto n.º 39 175, promulgado a 17 de abril de 1953, de acordo com os registos da Direção-Geral do Património Cultural.
A crença secular nas virtudes curativas e casamenteiras das águas das fontes locais, como a da Mealhada e a da Vila, transitaram do mito para a ciência em 1918. Nesse ano, o professor e químico Charles Lepierre procedeu à realização das primeiras análises físico-químicas e radioativas sistemáticas das nascentes de Castelo de Vide, conferindo validação empírica às antigas propriedades atribuídas popularmente às linhas de água.
Impulsionada por estas análises científicas, a Câmara Municipal de Castelo de Vide canalizou os caudais da Fonte da Vila para erguer um complexo balnear termal construído entre 1940 e 1942. O edifício, dotado de um traço arquitetónico regionalista da autoria de Ernesto Korrodi e Camilo Korrodi, refletia a aposta na saúde pública. Contudo, apesar do passado lendário e do investimento estatal, o estabelecimento termal acabou por ser totalmente abandonado, cessando os serviços clínicos no início da década de 1990.
Megalitismo milenar e a erosão demográfica atual
A paisagem envolvente de Castelo de Vide está pontuada por vestígios milenares, como o Menir da Meada, associado pela mitologia popular a construções prodigiosas de gigantes e a feitiços de mouras encantadas. Este monumento megalítico foi reerguido durante trabalhos arqueológicos realizados em 1993 e formalmente classificado como Monumento Nacional através do Decreto n.º 29/2013, publicado a 25 de outubro de 2013 pelo Governo de Portugal.
Todo este património material e imaterial foi sistematicamente inventariado ao longo das décadas por figuras como a investigadora Maria Guadalupe Transmontano Alexandre, que fixou dezenas de variantes da tradição oral na obra 'Etnografia, Linguagem e Folclore de Castelo de Vide', publicada em 1976 pela Junta Distrital de Portalegre. Em 2005, o historiador e poeta Ruy Ventura editou a compilação 'Contos e Lendas da Serra de São Mamede', cruzando mais tarde a filologia com a heráldica em 2016 na obra 'A Vide e seu Castelo', editada pela Editora Licorne.
Hoje, este vasto legado histórico enfrenta um desafio demográfico severo medido pelos censos oficiais. O concelho registou quedas populacionais consecutivas nos últimos recenseamentos do Instituto Nacional de Estatística, descendo de 3 780 habitantes em 2001 para 3 407 em 2011, e recuando ainda mais para 3 118 residentes nos Censos de 2021. Com uma superfície de 264,9 quilómetros quadrados, a densidade populacional fixou-se em 11,8 habitantes por quilómetro quadrado em 2021, situando-se muito abaixo da média da sub-região do Alto Alentejo, fixada em 17,2 habitantes por quilómetro quadrado, e dez vezes inferior à média nacional de Portugal continental.