A partida anunciada nos bancos da academia

A Universidade de Évora consolidou ao longo dos anos uma comunidade de cerca de 8 000 estudantes distribuídos por 6 escolas e 26 departamentos, abrangendo mais de 120 cursos conferentes de grau, segundo dados institucionais de 2022. Esta massa académica representa um motor demográfico essencial para o território envolvente, injetando vitalidade numa sub-região marcada por profundos desequilíbrios geracionais e assimetrias territoriais.

Contudo, o momento da conclusão dos estudos marca tradicionalmente a viragem para a dispersão geográfica. De acordo com o inquérito aos diplomados realizado pela Universidade de Évora em 2018, 32,2% dos inquiridos indicaram a Área Metropolitana de Lisboa como principal destino de inserção profissional, enquanto apenas 23,3% conseguiram fixar-se profissionalmente no distrito de Évora, invertendo a lógica de proximidade esperada para a instituição acolhedora.

Esta tendência de desvio acentua-se nos níveis de ensino mais avançados, conforme demonstra o mesmo estudo da Universidade de Évora de 2018. No 3.º ciclo de estudos, correspondente aos doutoramentos, a proporção de recém-diplomados a trabalhar em Lisboa atingiu uns expressivos 35,3%, um valor que duplica largamente os 17,6% de doutorados que lograram permanecer a trabalhar no distrito de Évora após a defesa das teses.

As assimetrias internas do Alentejo Central

A saída de diplomados repercute-se num tecido concelhio profundamente envelhecido e desigual em termos socioeconómicos. Segundo os Censos 2021 do Instituto Nacional de Estatística (INE), a sub-região do Alentejo Central registava globalmente 220,2 idosos por cada 100 jovens, um cenário onde o concelho de Évora se destacava de forma ligeiramente mais favorável com um índice de envelhecimento de 173 idosos por cada 100 jovens.

Em termos de retribuição salarial, o fosso entre os concelhos da mesma sub-região ajuda a explicar a incapacidade de retenção de ativos qualificados. De acordo com os dados apurados pela PORDATA em conjunto com o GEP/MTSSS relativos a 2023, o ganho médio mensal mais elevado fixou-se no concelho de Évora com 1 289,50 euros, ao passo que o valor mais baixo foi registado no concelho de Mourão, situando-se nos 937,00 euros.

Esta quebra de dinamismo demográfico não é recente, tendo raízes estruturais profundas na região. Os Censos 2021 do Instituto Nacional de Estatística (INE) mostram que, na década compreendida entre 2011 e 2021, todos os municípios da região Alentejo perderam mais de 10% da população residente, com exceção de Évora e Vendas Novas, cujas quebras demográficas se mantiveram contidas em cerca de 5%.

Universidade de Évora, Évora
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A divergência entre escolas e a resposta institucional

A capacidade de fixação de mão de obra altamente qualificada varia fortemente consoante a área académica de origem dos diplomados. O inquérito aos diplomados da Universidade de Évora de 2018 revela que apenas 28,8% dos graduados da Escola de Artes e 44,4% da Escola de Ciências Sociais conseguiam manter atividade profissional no Alentejo, contrastando fortemente com a Escola Superior de Enfermagem, onde a taxa de retenção local atingia os 50,0%.

Para tentar inverter esta tendência de fuga de quadros, as entidades regionais têm tentado criar pontes de cooperação estratégica. A 5 de julho de 2024, a Comunidade Intermunicipal do Alentejo Central (CIMAC) estabeleceu o Ponto de Contacto Regional do Programa Regressar, iniciativa documentada pelo Observatório da Emigração em 2024, com o objetivo primordial de captar e apoiar o retorno de diplomados e quadros técnicos à região.

No plano interuniversitário, a aposta na cooperação regional traduziu-se, em 2021, na criação do consórcio Campus Sul pelas Universidades de Évora, Nova de Lisboa e Algarve. O acordo, formalizado em 2021, visava desenhar ofertas formativas conjuntas e programas estruturados de transferência de conhecimento para tentar fixar capital humano qualificado a sul do rio Tejo.

A falácia da falta de emprego e o peso da família

A leitura mais imediata e intuitiva apontaria o desemprego juvenil galopante como o principal motor desta diáspora académica, sugerindo que os jovens abandonam Évora de imediato por incapacidade absoluta do mercado local em absorver nova mão de obra. Contudo, os indicadores oficiais relativos ao mercado de trabalho desmentem esta premissa simplista, revelando um cenário de empregabilidade surpreendentemente robusto para o ensino superior.

De acordo com os dados combinados da Direção-Geral de Estatísticas da Educação e Ciência (DGEEC) e do IEFP para 2024, a taxa de desemprego registado dos diplomados do ensino superior público em Portugal fixou-se em 2,4%, atingindo o registo mais baixo dos últimos nove anos a nível nacional. No caso específico da Universidade de Évora, o sistema interno de monitorização fixou a taxa interna de desemprego registado dos seus diplomados inscritos no IEFP em 3,4% no ano de 2024.

Se o desemprego não empurra os jovens para fora, o que motiva a saída? O inquérito aos diplomados da Universidade de Évora de 2018 esclarece que, entre os graduados que optam por não exercer no Alentejo, 31,8% apontam a distância em relação ao agregado familiar de origem como o motivo principal para a partida. A estes fatores soma-se o contexto nacional da sobrequalificação, que de acordo com a Fundação José Neves agravou-se de 19,9% em 2021 para 22,4% em 2022, empurrando muitos diplomados para funções abaixo das suas habilitações em grandes centros urbanos.

Escola Profissional da Região Alentejo, Évora
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O retrato geracional no contexto nacional e europeu

O esvaziamento de quadros do Alentejo Central insere-se numa dinâmica demográfica e económica de âmbito nacional e comunitário. Segundo dados divulgados pela Eurostat e pela Fundação José Neves em 2023, a proporção de jovens entre os 25 e os 34 anos com o ensino superior completo atingiu 44,4% em Portugal, superando pela primeira vez a média global da União Europeia, fixada em 42,0% para o mesmo período de referência.

Paralelamente, o peso relativo dos trabalhadores altamente qualificados na faixa etária dos 25 aos 34 anos disparou de 29,1% em 2011 para uns expressivos 47,0% em 2022 no total de jovens empregados em Portugal, conforme o registo estatístico do INE e da Fundação José Neves em 2023. No entanto, esta valorização académica colide com a emigração estrutural: o Observatório da Emigração apurou em 2024 que cerca de 30% dos jovens portugueses entre os 15 e os 39 anos nascidos no país residem atualmente fora do território nacional.

Para o território do Alentejo Central, onde as estimativas do INE indicam que o índice de envelhecimento nacional subiu de 178,3 idosos por 100 jovens em 2021 para 188,8 idosos por 100 jovens em 2025, cada diplomado que cruza a fronteira sub-regional rumo ao litoral representa a perda de um recurso crítico. A equação deixa de se centrar na mera escassez de postos de trabalho para se focar na atratividade salarial, na proximidade familiar e na compatibilidade entre as qualificações obtidas e as funções oferecidas nos concelhos do interior.