O eco do príncipe e da serpente

As margens do rio Guadiana, debruçadas sobre os seus 1292,85 km² de área territorial segundo os dados do INE e da PORDATA de 2025, guardam memórias que recuam muito para além dos registos escritos. Na recolha etnográfica organizada em 'Alentejo um Celeiro de Contos & Lendas', editada em 2015 por José Rabaça Gaspar com base em monografias locais, sobressai a lenda fundacional de Mértola. Esta narrativa descreve o encontro entre o príncipe fenício Polpio e Serpnea, a filha do rei Cfilas, amarrando a toponímia local a uma antiga matriz mítica de cariz oriental.

A dispersão geográfica destes núcleos de tradição oral, isolados nas antigas freguesias rurais do concelho, foi alimentada durante gerações pelas comunidades agro-pastoris locais. No entanto, de acordo com as obras de recolha de Lendas de Portugal publicadas pelo Círculo de Leitores em 2021, este valioso património imaterial encontra-se atualmente em risco de erosão contínua, fortemente impulsionado pelo acelerado envelhecimento demográfico que esvazia as aldeias do interior alentejano.

Para lá das narrativas de corte romanesco ou fundacional, o subsolo mertolense esconde outras figuras não menos persistentes no folclore. Segundo os registos de divulgação cultural da Associação de Defesa do Património de Mértola (ADPM) de 2022, a lenda da serpente associada ao subsolo mineiro e à toponímia local reflete simbolicamente, de forma muito direta, a prodigiosa riqueza metálica da Faixa Piritosa Ibérica, explorada de forma contínua desde a época em que os romanos pisaram aquelas terras.

O relevo das divindades antigas

A aparente simplicidade de um conto infantil ou de uma história de encantar esconde, na verdade, raízes históricas profundas. De acordo com o estudo académico publicado na coletânea 'Espaços e Paisagens' em 2014, fruto de uma colaboração entre a Universidade de Coimbra e o Campo Arqueológico de Mértola, as lendas das mouras encantadas — patentes em narrativas como a da serpente e a da mítica 'Tesourinha da Moura' — funcionam como verdadeiras sobrevivências de cultos ancestrais dedicados à veneração da Grande Deusa e da divindade Cíbele.

Estas histórias não vivem isoladas nas margens do sul de Portugal. Num estudo etnográfico sobre os mitos do Sul publicado em 2021 pelo Centro de Estudos em Arqueologia, Artes e Ciências do Património (CEAACP), apurou-se que as narrativas de mouras encantadas ligadas a tesouros subterrâneos em Mértola apresentam analogias diretas e impressionantes com as lendas dos concelhos limítrofes de Serpa e Beja, partilhando em absoluto o mesmo horizonte civilizacional raiano.

A fisionomia do território desempenha aqui um papel catalisador incontornável. Numa tese de mestrado apresentada em 2015 por Maria de Fátima Vinha Borges na Escola Superior de Educação Jean Piaget de Almada, sublinha-se que toda a tradição oral mertolense sobre as mouras está indissociavelmente ligada à fisionomia ribeirinha e agreste do rio Guadiana, que moldou a psicologia e o imaginário das gentes locais ao longo de dezenas de gerações.

Castelo de Mértola, Mértola
Castelo de Mértola, MértolaGoogle Places · Castelo de Mértola

A instituição da memória e da escavação

Preservar esta teia de mitos e pedras exige trabalho sistemático e fundos estruturados. De acordo com a programação científica do Campo Arqueológico de Mértola, foram desenvolvidos projetos específicos de inventário do património religioso e edificado entre os anos de 2019 e 2022, contando com o apoio financeiro de fundos comunitários do programa DLBC afeto ao Alentejo 2020.

Esta dinâmica científica não nasceu ontem, pois os relatórios de atividade do Campo Arqueológico de Mértola mostram que a instituição mantém, desde a sua fundação oficial ocorrida em 1978, uma linha contínua de investigação em antropologia cultural e história local. O foco principal tem sido precisamente o registo rigoroso e a escuta atenta dos testemunhos diretos transmitidos pelas gentes do concelho.

A materialidade desta herança espalha-se pela malha urbana da vila museu. Conforme o inventário de estruturas museológicas divulgado pelo Museu de Mértola em 2026, a instituição dispõe de 14 núcleos museológicos visitáveis espalhados pelo centro histórico, embora a componente estritamente legendária e mítica permaneça difusa no tecido urbano, resistindo na tradição oral e não confinada a um único edifício de exposições.

Entre a pedra arqueológica e a tradição oral

A leitura mais óbvia tenderia a encarar estas lendas de mouras encantadas e serpentes subterrâneas como meros contos de fadas medievais, destituídos de qualquer valor documental ou ligação à realidade física do território. Contudo, esta visão redutora cai por terra perante o cruzamento metodológico promovido pela investigação científica moderna no concelho.

Numa análise aprofundada ao património imaterial da região divulgada em 2021 pelo Campo Arqueológico de Mértola, atesta-se que a tradição oral cruza de forma singular e irrepetível o ciclo das mouras encantadas com a herança islâmica de Al-Mîrtulî e com os densos vestígios arqueológicos deixados pelas civilizações da Antiguidade.

A validação televisiva e documental deste cruzamento foi amplamente difundida ao grande público em 2008 através do programa 'A Alma e a Gente', da autoria de José Hermano Saraiva emitido pela RTP. Na reportagem, sublinha-se que a vila assume com inteira justiça o estatuto de 'Vila Museu' precisamente por conseguir cruzar a arqueologia material do solo com a perenidade dos mitos populares recolhidos pelos investigadores ao longo de décadas.

Casa de Mértola, Mértola
Casa de Mértola, MértolaGoogle Places · Casa de Mértola

O reflexo vivo no presente

O legado destes mitos milenares não ficou soterrado nos compêndios académicos ou nas estantes das bibliotecas. Segundo o portal oficial de turismo 'VisitMértola' em 2026, o concelho integra formalmente no seu itinerário cultural e festivo a vivência de mitos e rituais associados à Antiguidade e à Idade Média, promovendo ativamente eventos bienais de grande projeção como o célebre Festival Islâmico.

Este esforço de dinamização turística e patrimonial ganha relevo quando olhamos para a vastidão do território. Com os seus 1292,85 km² registados pelo INE e pela PORDATA em 2025, o concelho de Mértola enfrenta o desafio constante de manter coesa a memória coletiva de um espaço rural muito disperso e fortemente fustigado pelo isolamento demográfico contemporâneo.

Desta forma, caminhar hoje pelas ruas íngremes de Mértola ou olhar para as correntes profundas do rio Guadiana é cruzar um território onde a lenda e o documento histórico deixaram de ser mundos separados. Continuam a alimentar-se mutuamente, transformando cada rocha, cada mina ancestral e cada festa periódica num testemunho vivo do sul.