A mariposa e os campos

A narrativa fundacional associada ao culto religioso em Mourão relata a aparição de Nossa Senhora da Luz a Santo Adriano nos chamados 'Campos da Lousa', uma imagem insólita onde a figura divina surge inicialmente em forma de mariposa e é depois rodeada de coros celestiais sobre uma azinheira, conforme regista a Tradição Oral e Religiosa de Mourão em 2026. Esta visão prodigiosa serve de pilar espiritual a uma comunidade que, anualmente, mantém vivas as práticas devocionais mais enraizadas na região do Alentejo Central.

A centralidade desta devoção materializa-se na Festa de Nossa Senhora da Luz, um evento que se realiza anualmente no primeiro domingo de setembro, prolongando-se por quatro dias de intensa romaria, de acordo com a Junta de Freguesia de Luz e o Município de Mourão em 2026. A estas comemorações estivais juntam-se as festividades em honra de Nossa Senhora das Candeias, celebradas anualmente a 2 de fevereiro pela Paróquia de Mourão e pelo Município de Mourão em 2026, mantendo um calendário litúrgico secular na vila.

Contudo, a paisagem onde estas memórias se ancoram sofreu transformações radicais que redefiniram a geografia física e humana do concelho. A área geomorfológica submersa pelo Grande Lago Alqueva na envolvente de Mourão alterou permanentemente os ecossistemas ribeirinhos do rio Guadiana, redefinindo o património arqueológico visível e submerso, conforme atestam a Agência Portuguesa do Ambiente e a EDIA em 2025.

A espada e o pergaminho

Se a tradição oral fala de milagres e aparições celestes, os documentos de chancelaria régia revelam motivações estritamente militares e geopolíticas para o nascimento do burgo. A primeira Carta de Foral atribuída à vila de Mourão data de 1226, ano em que o Rei D. Sancho II doou a povoação aos Cavaleiros da Ordem dos Hospitalários com o objetivo claro de incentivar o seu povoamento e defesa numa perigosa zona de fronteira, segundo dados do Município de Mourão e da Ordem dos Hospitalários.

Quase três séculos mais tarde, a Coroa Portuguesa sentiu necessidade de atualizar e consolidar a administração local, concedendo o foral manuelino à vila de Mourão no ano de 1511, período em que foram reforçadas as estruturas defensivas e administrativas do concelho, de acordo com os registos de D. Manuel I. Esta evolução jurídica contrasta com a lentidão das transformações demográficas e espaciais que caracterizam o interior alentejano ao longo dos séculos seguintes.

A densidade populacional e os indicadores demográficos do concelho de Mourão registam uma contração acentuada nas últimas décadas, enquadrando-se de forma direta na tendência nacional de interiorização e envelhecimento demográfico do Alentejo Central, conforme sublinha o Instituto Nacional de Estatística nos censos de 2021. Esta quebra populacional contrasta com a monumentalidade pétrea que resiste no topo das elevações locais.

Mourão, Mourão
Mourão, MourãoGoogle Places · Pedro Alves

A pedra e o baluarte

A morfologia rural do concelho de Mourão evidencia na sua estrutura orográfica elevações de altitude superior a 150 metros, destacando-se de forma clara o Cabeço, com 276 metros de altitude, e o Cantarinho, com 253 metros, segundo o Instituto Geográfico e a Junta de Freguesia de Mourão em 2026. É sobre estas eminências do terreno que o sistema defensivo se ergueu para dominar visualmente os horizontes secos da planície alentejana.

A construção da atual estrutura do Castelo de Mourão iniciou-se em 1343 por ordem expressa de D. Afonso IV, ostentando um traço arquitetónico cuja autoria é atribuída ao mestre João Afonso, segundo os registos da Monarquia Portuguesa. Séculos mais tarde, perante novas exigências tecnológicas da guerra, as fortificações seiscentistas do Castelo de Mourão foram profundamente reestruturadas durante as Guerras da Restauração, incorporando quatro baluartes e revelins adaptados à artilharia da época, conforme o plano do Conselho de Guerra da Coroa Portuguesa em 1664.

Numa demonstração de continuidade patrimonial no presente, a Câmara Municipal de Mourão concluiu em março de 2025 a empreitada de iluminação cénica em LED do Castelo de Mourão, uma intervenção técnica destinada a valorizar o património histórico e a imponente linha de muralhas visível a partir de toda a vila.

O mito sob as águas

A leitura mais óbvia assumiria que as lendas de fundação de Mourão e da Aldeia da Luz possuem registos documentais medievais diretos que comprovem a veracidade cronológica dos milagres orais transmitidos de geração em geração. Contudo, os documentos oficiais e as escavações arqueológicas demonstram que a ocupação humana resultou de contingências estritamente militares de fronteira e de reordenamentos medievais promovidos pela Ordem dos Hospitalários, dissociando a criação mitológica da estrita comprovação arquivística, de acordo com os dados da EDIA e do município.

O exemplo mais flagrante desta separação entre o mito oral e a escavação científica encontra-se no Castelo da Lousa, uma fortificação romana datada do século I a.C. que está ligada à génese histórica e lendária da antiga freguesia da Luz e que se encontra atualmente submersa pelas águas da Barragem do Alqueva, segundo relatórios da EDIA em 2002. Esta submersão alterou permanentemente a paisagem e obrigou a uma reconfiguração geográfica sem precedentes na região.

A zona territorial afetada pela submersão do Alqueva em Mourão implicou o realojamento completo da população da antiga Aldeia da Luz para um novo aglomerado planeado de raiz, cuja conclusão ocorreu na viragem do milénio, conforme registam os documentos da EDIA e do Governo de Portugal de 2002. Este processo drástico incluiu ainda a supressão temporária do próprio concelho de Mourão entre 12 de julho de 1895 e 13 de janeiro de 1898, período em que o território da freguesia da Luz integrou administrativamente o concelho de Reguengos de Monsaraz, segundo os registos do Governo Civil e da Administração Central em 1895.

Praia Fluvial de Mourão, Mourão
Praia Fluvial de Mourão, MourãoGoogle Places · Joseph Dos Santos

O clima e o silêncio do chão

A dureza da paisagem de Mourão molda-se também através de um regime térmico e pluvial muito vincado, onde a precipitação média anual no concelho ronda os 500 mm, concentrando-se fortemente entre os meses de outubro e março. Este valor contrasta de forma acentuada com um semestre estival extremamente seco, onde a média de precipitação desce abruptamente para cerca de 170 mm, segundo os dados climatológicos do IPMA em 2026.

Este ciclo de invernos húmidos e verões áridos define os ritmos da agricultura de sequeiro e o isolamento secular de montes e herdades que caracterizam o território alentejano em redor da vila. A ausência de registos escritos antigos sobre certas lendas locais realça o peso da tradição falada face à escassez de documentos arquivísticos preservados ao longo dos séculos.

Enquanto a iluminação LED de 2025 desenha os contornos noturnos das muralhas medievais e o lago do Alqueva cobre para sempre os segredos do Castelo da Lousa, Mourão continua a gerir o fosso entre o que a pedra testifica nos forais régios de 1226 e aquilo que apenas a memória dos mais velhos ousa contar sobre mariposas divinas.