O morro milenar

A colina do Castelo de Aljustrel ergue-se sobranceira à paisagem do Baixo Alentejo, guardando nos seus estratos uma ocupação humana contínua que remonta a cerca de 3000 a.C., durante a Idade do Cobre, conforme atesta o Município de Aljustrel em 2025. Este morro estratégico, onde hoje se concentram as atenções de quem visita a freguesia sede — que representa cerca de 53% da população total do concelho mineiro, de acordo com os Censos do INE de 2021 —, foi moldado por sucessivas civilizações ao longo de milénios.

As análises estratigráficas e arqueológicas conduzidas pela Universidade Nova de Lisboa em 2025 identificaram claramente no local duas fases construtivas distintas de muralhas de taipa de fortificação almóada, datadas entre os séculos XII e XIII. Esta presença islâmica marcou profundamente a topografia defensiva da colina, antes de a fortificação ser tomada aos mouros durante o reinado de D. Sancho II pelas forças da Ordem de Santiago, num momento histórico documentado pela Chancelaria Régia em 1234 e divulgado pela Freguesia de Aljustrel.

A transição de poderes e a reorganização do território exigiram marcos administrativos firmes, traduzidos na concessão do primeiro foral à vila para regular a sua administração e estatuto territorial no século XIII, formalmente datado de 1252 segundo a Chancelaria Real. Mais tarde, já no século XVI, a Coroa Portuguesa atribuiu um foral novo por D. Manuel I em 1514, inserindo a povoação na política régia de reforma municipal que remodelou vilas de norte a sul do país.

A ermida e o abalo de 1755

No topo desta mesma colina fortificada foi erguida a Ermida de Nossa Senhora do Castelo, cuja fundação e estruturação inicial remontam cronologicamente ao século XIV, num contexto de repovoamento e fortificação do monte destacado pela Câmara Municipal de Aljustrel em 2025. Séculos mais tarde, o edifício sofreu intervenções marcantes, como a edificação da galilé que antecede a ermida ao longo do século XVIII, em consonância com o impulso barroco local documentado pela Direção-Geral do Património Cultural no inventário do SIPA de 2024.

A solidez estrutural do templo foi severamente testada por eventos catastróficos naturais, com destaque para o impacto do sismo de 1755, que provocou danos profundos na estrutura física da Ermida de Nossa Senhora do Castelo, exigindo empreitadas extraordinárias de reconstrução nas décadas seguintes, conforme registado pelo Arquivo Histórico da Câmara Municipal de Aljustrel. Outras alterações significativas ocorreram no século XX, designadamente nas obras de reestruturação profunda e restauro da zona do altar-mor realizadas na década de 1960, que alteraram parte da alvenaria e das estruturas superiores de madeira, segundo os registos da Paróquia de Aljustrel de 1965.

A importância patrimonial e simbólica deste conjunto fortificado e religioso levou o Governo de Portugal a classificá-lo oficialmente como Imóvel de Interesse Público através do Decreto-Lei n.º 26-A/92, emitido em 1992. Esta classificação veio consagrar a preservação de um espaço que cruza a arquitetura militar medieval com a devoção mariana secular, num concelho onde a história mineira e a herança religiosa caminham lado a lado.

Aljustrel, Aljustrel
Aljustrel, AljustrelGoogle Places · Alby Set

O mito acústico e a prova documental

A leitura mais óbvia tenderia a encarar a lenda da rocha da Ermida de Nossa Senhora do Castelo e o rito de escuta do mar como meros contos de fadas infantis sem qualquer ponto de contacto com a história concreta. Contudo, as inquirições eclesiásticas de 1510 demonstram que o santuário primitivo já era considerado de antiguidade imemorial, sem memória exata da fundação pelos habitantes locais, conforme os registos da Paróquia de Aljustrel divulgados pelo município. A recolha etnográfica oficial coordenada pelo Centro de Estudos de Antropologia Portuguesa da Universidade de Coimbra documentou em 1998 a narrativa oral sobre a rocha da aparição e o fenómeno acústico associado ao som do mar na região.

Diferenciando claramente a tradição oral do registo histórico, as mesmas recolhas etnográficas do Baixo Alentejo, publicadas em 1998 pelo CEAO, registam variações da lenda em que o sacristão relata a aparição da Virgem para salvar embarcações em perigo na costa de Sines, ligando o interior mineiro ao oceano através da oralidade popular. Esta ponte imaginária entre a planície alentejana e o litoral atlântico foi também contextualizada pelo programa televisivo cultural 'Viagens na Nação Valente', emitido pela RTP em 2023, que explorou as variantes das lendas marianas no imaginário popular.

A análise rigorosa dos factos demonstra que, ao contrário de uma invenção tardia, a rocha basilar e a estrutura física da capela foram deliberadamente integradas nos alicerces do monumento medieval. Este cruzamento entre o mito recolhido etnograficamente em 1998 e os relatórios arqueológicos municipais de 2025 comprova que a devoção local sobreviveu a sismos, remodelações barrocas e reformas setecentistas, mantendo viva a memória de um santuário fundado no século XIV.

Ex-votos e a devoção da Guerra do Ultramar

A longevidade da devoção popular em Aljustrel não se restringe aos documentos medievais ou às crónicas eclesiásticas de 1510, encontrando na cultura material dos séculos XIX e XX um testemunho direto e tangível. O registo de ex-votos, fotografias e peças de ourivesaria depositados no santuário revela um pico de devoção popular associado sobretudo ao período da Guerra do Ultramar, conforme inventariado pela Paróquia de Aljustrel em 1970.

Estes objetos votivos, oferecidos por fiéis em momentos de extrema aflição ou em agradecimento por sobrevivência em teatros de operações distantes, funcionam como arquivos vivos da história emocional do concelho. Comparativamente com outros santuários marianos do país, a concentração de testemunhos ligados ao esforço de guerra nos anos 70 espelha o impacto demográfico e social que os conflitos externos provocavam nas comunidades do sul de Portugal.

A preservação destes artefactos na Ermida de Nossa Senhora do Castelo complementa a investigação arqueológica da Universidade Nova de Lisboa de 2025, unindo a arqueologia do subsolo à etnografia religiosa contemporânea. Através destas peças de ourivesaria e registos fotográficos datados de 1970, o santuário assume-se como um ponto de convergência entre a grande história nacional e as pequenas histórias de vida do Baixo Alentejo.

Igreja de Nossa Sra. do Castelo, Aljustrel
Igreja de Nossa Sra. do Castelo, AljustrelGoogle Places · JOAO BAIAO

A paisagem que permanece no monte

Hoje, quem sobe ao morro do Castelo de Aljustrel encontra uma paisagem moldada por milénios de ocupação humana contínua, desde os vestígios da Idade do Cobre de 3000 a.C. até às muralhas almóadas dos séculos XII a XIII documentadas pela arqueologia em 2025. O espaço físico da ermida, restaurado após o abalo sísmico de 1755 e remodelado na década de 1960, continua a dominar a vila onde habita mais de metade da população concelhia, segundo os dados demográficos do INE de 2021.

A persistência do culto em torno da rocha milagrosa, estudada pelo Centro de Estudos de Antropologia Portuguesa em 1998, prova que a lenda do som do mar sobrevive na oralidade local, alimentando a identidade cultural da região a par dos forais históricos de 1252 e 1514. Entre o património classificado pelo Decreto-Lei n.º 26-A/92 e a galilé setecentista catalogada pelo SIPA em 2024, o monte de Aljustrel permanece como o ponto cardeal onde a história documentada e a tradição oral continuam a dialogar.

A documentação exaustiva deste património religioso e arquitetónico continua, no entanto, condicionada pelo estado dos arquivos históricos locais e regionais. O Arquivo Distrital de Beja e o Arquivo Secreto do Bispado de Beja guardam registos cuja análise exaustiva permanece incompleta para os períodos anteriores ao século XVI.