A curva ascendente do sol

No ano de 2015, a produção anual de energia fotovoltaica em Portugal fixava-se nuns modestos 800 gigas-hora, segundo os registos oficiais da Direção-Geral de Energia e Geologia. O panorama energético nacional vivia ainda fortemente ancorado nas grandes bacias hidrográficas e na força do vento que girava nas serras do norte e centro do país, deixando o sol do sul relegado para um plano secundário de aproveitamento difuso.

A inflexão profunda nesta trajetória temporal começou a desenhar-se de forma acelerada na década seguinte, impulsionada pelas metas comunitárias de descarbonização e pela queda abrupta dos custos tecnológicos dos painéis fotovoltaicos. Em 2024, a produção nacional de origem solar disparou para os 5600 gigas-hora, multiplicando por sete o valor registado nove anos antes, de acordo com os dados estatísticos da Direção-Geral de Energia e Geologia.

Este crescimento explosivo encontrou no Alentejo a sua geografia de eleição. Beneficiando de uma topografia predominantemente plana, de uma elevadíssima radiação solar anual e de uma menor densidade de restrições ambientais estritas em comparação com o litoral, a região alentejana transformou-se no grande íman nacional para a instalação de novas potências de produção elétrica limpa, conforme sublinha um estudo académico divulgado em 2026 pela Universidade de Évora da autoria de Jeremias Dos Santos.

A chegada aos gigawatts

A expansão territorial da energia solar no Alentejo deixou de ser uma promessa de feira de amostras para se converter numa realidade estatística massiva. Em 2024, a capacidade instalada de energia solar na região do Alentejo registou um crescimento homólogo de 40%, ultrapassando de forma consistente a fasquia dos 2,7 gigawatts, de acordo com os relatórios publicados pela Direção-Geral de Energia e Geologia desse mesmo ano.

Para compreender a escala real deste valor regional de 2,7 gigawatts em 2024, convém ponderar o contexto do país inteiro: em março de 2024, a potência total instalada em centrais fotovoltaicas em Portugal situava-se globalmente em 2170 megawatts, repartindo-se o restante por centrais industriais e unidades de autoconsumo descentralizado, segundo dados oficiais da Direção-Geral de Energia e Geologia.

Dois anos mais tarde, em 2026, Portugal continental atingiu um total acumulado de 6,806 gigawatts de potência instalada em energia solar fotovoltaica, confirmando a forte concentração desta infraestrutura nos concelhos alentejanos, conforme atestam os balanços operativos da Direção-Geral de Energia e Geologia publicados em 2026.

Mapear o território rural

Com a necessidade imperiosa de cumprir as metas europeias de neutralidade carbónica, o Governo português abriu em 2026 a consulta pública do Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis, transpondo para o ordenamento jurídico nacional a Diretiva Europeia 2023/2413, conhecida como RED III, que veio dispensar de Avaliação de Impacte Ambiental os projetos localizados nesses perímetros pré-identificados, segundo o portal institucional Participa em 2026.

Através desta proposta do Programa Setorial das Zonas de Aceleração da Implantação de Energias Renováveis de 2026, a Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030 identificou mais de 65 mil hectares com potencial mapeado para instalar centrais solares e eólicas em toda a vasta mancha territorial do Alentejo.

Olhando para as sub-regiões, o planeamento detalha-se: na sub-região do Alentejo Central, a proposta do programa mapeou 46 zonas potenciais dedicadas exclusivamente à energia solar, abrangendo exatamente 2,69% da superfície territorial total daquele território, de acordo com os dados oficiais da Estrutura de Missão para o Licenciamento de Projetos de Energias Renováveis 2030.

O mito da expropriação massiva

A leitura mais óbvia e imediata que circula no espaço público sugere que a totalidade desta vaga de expansão solar no Alentejo consome e substitui diretamente as terras agrícolas mais produtivas, implicando uma expropriação massiva de pequenos agricultores e a destruição total da economia rural tradicional.

Contudo, os dados oficiais da Direção-Geral de Energia e Geologia e os relatórios de planeamento territorial do programa setorial de 2026 demonstram que grande parte dos megaprojetos fotovoltaicos procura intencionalmente instalar-se em lezírias, solos de menor aptidão agronómica, ou em áreas industriais e mineiras desativadas.

Um exemplo paradigmático desta tipologia de ocupação ocorreu em 2023, quando um grupo de investidores adquiriu os dois mil hectares da desativada mina de São Domingos, localizada no concelho alentejano de Mértola, com o objetivo claro de implementar projetos mistos de centrais solares, eólicas e produção de hidrogénio verde, aproveitando solos degradados sem uso agrícola ativo, conforme noticiado pelo Jornal de Negócios em 2024.

A diversidade de escalas locais

A realidade do terreno difere profundamente consoante o município analisado, alternando entre grandes projetos industriais e a forte aposta descentralizada. Em março de 2024, os dados da Direção-Geral de Energia e Geologia mostravam que cerca de 49% da potência nacional correspondia a Unidades de Produção para Autoconsumo, provando que o setor não é feito apenas de gigantescas centrais de centenas de hectares.

Apesar disso, a pressão sobre os solos de transição gera alertas constantes por parte de movimentos ambientalistas. Em 2023, a associação ambientalista Zero alertou publicamente que um projeto de central solar fotovoltaica na serra do Paço pretendia ocupar toda a área remanescente ainda não ocupada por agricultura intensiva e painéis solares no concelho de Ferreira do Alentejo, segundo dados divulgados pela Associação Zero em 2023.

Para discutir estes equilíbrios locais e definir salvaguardas rigorosas, realizou-se em julho de 2026 uma sessão de trabalho na Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo, presidida por Ricardo Pinheiro, para debater com os autarcas dos 47 concelhos os critérios e limites de integração territorial das futuras zonas de aceleração de renováveis, de acordo com a CCDR Alentejo em 2026.

O horizonte energético regional

A matriz energética em Portugal continental tem sofrido uma mutação estrutural profunda ao longo dos últimos anos. Em 2023, a produção elétrica de origem renovável repartia-se de forma equilibrada entre a grande hídrica com 41,9%, a eólica com 30,7% e a solar fotovoltaica com 19,4%, segundo os balances oficiais da Direção-Geral de Energia e Geologia publicados em 2023.

Com a aceleração dos licenciamentos e a concretização das metas europeias, as fontes renováveis atingiram em 2026 uma quota de 63% na eletricidade produzida em Portugal, caminhando rapidamente para a meta comunitária fixada em alcançar os 93% de eletricidade limpa até ao ano de 2030, de acordo com as projeções da Comissão Europeia divulgadas em 2024.

Para quem vive nos concelhos alentejanos, o desafio futuro reside em conciliar esta imensa transformação na paisagem com a preservação do tecido socioeconómico local, sabendo que o solo rural continua a ser gerido entre o rigor dos planos setoriais e a pressão constante dos mercados internacionais de energia.