A água que vinha dos tempos antigos

A 20 de março de 1759, uma escritura de aforamento localizada no Arquivo Histórico Municipal fixou juridicamente a proximidade imediata entre a estalagem e a fonte pública lendária, mostrando que o espaço urbano crescia em redor daquela água. O documento não registava apenas pedras ou quintais, mas sim a dependência económica e quotidiana de um ponto de abastecimento que alimentava os viandantes e os animais que cruzavam o Alto Alentejo. Em 1835, a documentação administrativa do concelho voltou a inventariar formalmente a infraestrutura, cruzando a infraestrutura com os registos de benfeitorias locais e avaliando o seu estado de conservação.

Muito antes de os mapas administrativos ganharem forma definitiva, a tradição popular da zona já circulava de boca em boca pelas margens da ribeira. Em 1726, o médico régio Francisco da Fonseca Henriques registou na obra 'Aquilegio Medicinal' a tradição popular associada à Fonte da Vila de Ponte de Sor, conferindo estatuto impresso a crenças que habitavam o imaginário coletivo dos habitantes locais. Esta recolha primitiva colocou no papel o que os lavradores e os pastores repetiam sobre as curas e os milagres atribuídos àquela nascente em concreto.

Diferente de outras regiões peninsulares onde as fontes eram apenas pontos de recolha, em Ponte de Sor a água funcionava como o centro gravitacional de uma toponímia de transição viária. Entre 1822 e 1823, no reinado de D. João VI, construiu-se a ponte de alvenaria sobre a ribeira de Sor para substituir a travessia medieval e a antiga barca municipal, alterando de forma radical os acessos e a circulação de pessoas que procuravam a célebre fonte à entrada da povoação.

O poder municipal erguido a tinta e cal

A consolidação administrativa da povoação não decorreu sem sobressaltos estruturais nas instâncias de poder local. Em 1684, uma ata da câmara municipal atestou que as reuniões governativas ocorriam na casa do escrivão porque as instalações oficiais originais estavam derruídas, deixando os vereadores sem um teto próprio para deliberar sobre os destinos do concelho. Esta precariedade institucional contrastava com a importância estratégica que a vila ribeirinha ia ganhando ao longo dos séculos XVII e XVIII nas rotas comerciais do território.

Para colmatar a falta de paços concelhios dignos desse nome, em 1682, uma provisão régia autorizou a aplicação de 100.000 réis de impostos concelhios para reerguer os Paços do Concelho, obra concluída em 1687. O esforço financeiro exigido à população permitiu erguer um edifício que centralizou a justiça e a administração local, estruturando o burgo em redor das novas centralidades políticas autorizadas pela Coroa Portuguesa.

Pou décadas mais tarde, o crescimento do burgo exigiu nova descrição exaustiva do património edificado municipal. Em 1767, o tombo concelhio descrevia detalhadamente o edifício municipal situado junto à Rua Grande e à ponte histórica, contemplando cadeia e açougue no piso térreo, o que demonstra a concentração de funções repressivas, económicas e políticas no mesmo quarteirão urbano da vila alentejana.

Centro histórico de Ponte de Lima, Ponte de Sor
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Entre a lenda da ponte e a realidade dos arquivos

A leitura mais óbvia apontaria para a existência de uma lenda autóctone milenar de uma moura encantada ligada diretamente à estrutura da ponte romana de Ponte de Sor, tal como acontece noutras localidades ribeirinhas do país, como Mérida ou Alcántara. Contudo, os documentos do Arquivo Histórico Municipal e as monografias locais demonstraram que a toponímia lendária e oral do concelho se fixou sobretudo à volta das propriedades milagrosas da água da Fonte da Vila e da toponímia de transição viária, enquanto os vestígios da ponte romana desapareceram dos registos materiais ainda antes do século XV.

Enquanto os mitos peninsulares de mouras costumam povoar grutas profundas ou pilares de pontes seculares, a investigação etnográfica desenvolvida no concelho revelou uma ausência de contos estritos sobre mouras subterrâneas nos fundos paroquiais mais antigos. Em 2002 e 2003, o jornalista José Viale Moutinho coordenou uma recolha extensiva de literatura popular e lendas para o Diário de Notícias, incluindo textos específicos dedicados a lendas de Ponte de Sor que priorizavam as narrativas ligadas a milagres de cura e fontes milagrosas em detrimento do folclore mágico fluvial.

Esta separação entre o mito popular e o documento jurídico fica patente na evolução do estatuto administrativo da povoação. Em 29 de agosto de 1514, D. Manuel I outorgou o Foral Novo à vila, impulsionando a fixação documental e o desenvolvimento administrativo da povoação ribeirinha, substituindo o anterior quadro senhorial por leis escritas que ignoravam completamente os encantamentos lendários transmitidos oralmente pelos pastores.

As cheias, a pedra e a rede de socorro

A dependência face aos cursos de água trazia tanto de benéfico como de destrutivo para a estabilidade física da infraestrutura de travessia. Em 1867, após uma cheia destruir troços da travessia fluvial, a infraestrutura foi alvo de reparações profundas com a aplicação de arcos de cantaria, num esforço coordenado pela Direção de Obras Públicas para restabelecer a circulação rodoviária entre as margens do rio Sor.

Para acorrer aos viajantes, feridos e doentes que sofriam com as intempéries e os acidentes nas estradas do concelho, a solidariedade institucional manifestou-se de forma concreta no século XX. Em 1936, inaugurou-se o Hospital Vaz Monteiro, infraestrutura doada à Santa Casa da Misericórdia que complementou a rede de acolhimento a viandantes historicamente associada ao eixo da antiga ponte e às rotas de circulação do Alto Alentejo.

Com o crescimento demográfico e a absorção de freguesias vizinhas ao longo do século XIX, como Galveias e Montargil, a centralidade administrativa exigiu uma nova reordenação territorial. Em 8 de julho de 1985, a povoação foi elevada oficialmente ao estatuto de cidade pela Assembleia da República, consolidando a centralidade administrativa face aos aglomerados populacionais vizinhos.

Ponte Pedonal de Ponte de Sor, Ponte de Sor
Ponte Pedonal de Ponte de Sor, Ponte de SorGoogle Places · José Paiva Wolff

A voz do povo recolhida no presente

O esforço de resgate da memória oral e escrita não ficou confinado aos arquivos empoeirados da administração central ou municipal. Em dezembro de 1982, formalizou-se legalmente o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Ponte de Sor, entidade pioneira na recolha etnográfica de lendas e cantares locais que corria as aldeias para registar testemunhos de antigos moradores antes que estes desaparecessem.

Anos mais tarde, esse material recolhido ganhou visibilidade pública fora dos palcos tradicionais de canto e dança popular. Em 2015, o mesmo grupo etnográfico promoveu uma exposição temática no Centro de Artes e Cultura com trajes e artefactos tradicionais resultantes de recolhas orais no concelho, permitindo aos visitantes confrontar os adereços materiais com as transcrições das lendas antigas.

Dando continuidade a esta cruzada entre a pedra arqueológica e o papel manuscrito, em janeiro de 2018, o Arquivo Histórico Municipal instituiu colóquios anuais dedicados a cruzar a arqueologia pré-histórica e romana com o fundo documental autárquico. Nestes encontros, historiadores e investigadores debatem anualmente os limites entre o que a tradição oral inventou e o que os livros de registo conseguiram efetivamente provar ao longo de cinco séculos de vida concelhia.