A sombra do alcaide na muralha
Em Santiago do Cacém, no Alentejo Litoral, a paisagem é dominada por uma fortificação secular cuja silhueta se ergue sobranceira à planície. Segundo a Câmara Municipal de Santiago do Cacém num registo de 2024, a tradição oral e a lenda recolhida sobre a fundação do burgo sustentam que o território era governado na época muçulmana por um líder rico de nome Kassen, cuja designação ficou indissociavelmente associada à etimologia da localidade.
Esta narrativa popular funde-se com a herança territorial descrita pela Região de Turismo da Costa Azul num documento de 2025, onde se sublinha que toda esta faixa litoral e planície alentejana exibe uma toponímia e lendas medievais de raiz islâmica fortemente cruzadas com a herança das ordens militares. Contudo, a transição entre o antigo esplendor e a colina fortificada esconde fissuras cronológicas assinaladas pelos investigadores.
Conforme apontado pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém em 2024, os historiadores identificam contradições assinaláveis na transição exata do povoado romano de Miróbriga — cujo declínio ocorreu nos séculos IV ou V d.C., de acordo com os registos arqueológicos municipais de 2024 — para a colina medieval fortificada que hoje define a fisionomia urbana da cidade alentejana.
De acordo com a mesma fonte municipal de 2024, a ocupação humana na área do concelho recua profundamente à pré-história e à antiguidade clássica, destacando-se as ruínas romanas de Miróbriga como principal polo urbano da região até ao seu declínio no século IV ou V d.C., o que evidencia uma longa descontinuidade antes da consolidação do povoado medieval fortificado na colina.
O labirinto militar da Reconquista
A história documentada do monumento revela um domínio cristão extremamente instável durante o século XII, marcado por avanços e recuos militares comparáveis aos de outras praças da mesma rota. Numa análise comparativa com fortificações como Palmela e Alcácer do Sal, o Património Cultural destacou em 2023 que Santiago do Cacém partilha cronologias de reconquista idênticas nos finais do século XII e início do século XIII.
De acordo com o inventário do Património Cultural publicado em 2023, o castelo medieval foi tomado pela primeira vez aos mouros em 1158 pelos Cavaleiros do Templo. No entanto, a instabilidade da fronteira fez com que a fortificação fosse perdida em 1185, tendo sido recuperada logo no ano seguinte, em 1186, pela Ordem de Santiago, conforme documentado nos registos históricos da fortificação em 2023.
A trégua cristã durou pouco tempo, pois as forças almóadas comandadas pelo califa Al-Mansor reconquistaram a praça no âmbito da campanha militar de 1191, segundo a cronologia oficial divulgada pela Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais em 2025. O regresso definitivo à Coroa portuguesa e à Ordem de Santiago só viria a consumar-se em 1217, sob o reinado de D. Afonso II, conforme atestam os dados históricos validados de 2025.
A princesa bizantina e o mito de Kassen
A leitura mais óbvia assumiria que o nome e a fundação de Santiago do Cacém derivam exclusivamente de factos militares registados em crónicas oficiais da Reconquista Cristã; no entanto, o dossiê documental demonstra que a tradição oral e a lenda popular sobrepõem figuras míticas — como o alcaide Kassen e a princesa bizantina D. Vataça — para explicar a etimologia e a identidade do burgo.
De acordo com as monografias e registos históricos locais publicados pela Câmara Municipal de Santiago do Cacém em 2024, a lenda alternativa da princesa bizantina aponta para a chegada de D. Vataça Lascaris, que administrou a vila e o castelo entre 1315 e 1336. Apuram os registos genealógicos e nobiliárquicos citados pela Wikipédia em 2025 que D. Vataça Lascaris faleceu no ano de 1336.
Conforme os mesmos dados de enquadramento territorial da Região de Turismo da Costa Azul publicados em 2025, foi após o falecimento desta figura central ligada às lendas e à administração medieval que o território regressou plenamente à administração direta da Ordem de Santiago, separando a mitologia senhorial do rigor burocrático.
Embora a lenda popular atribua a fundação e o nome primitivo de 'Cacém' estritamente ao alcaide mouro Kassen no século VIII, os historiadores apontam contradições na transição exata do povoado romano de Miróbriga para a colina medieval fortificada, conforme sublinha a Câmara Municipal de Santiago do Cacém no seu balanço histórico de 2024.
Terramotos, decretos e o cemitério na cidadela
A solidez da fortaleza medieval sofreu golpes profundos ao longo dos séculos, destacando-se a catástrofe telúrica de meados do século XVIII. De acordo com o inventário histórico da Associação Cultural de Santiago do Cacém divulgado em 2023, a fortaleza sofreu danos consideráveis na sua estrutura muralhada na sequência do terramoto de 1755 que abalou Portugal.
A ocupação do espaço intramuros transformou-se de forma surpreendente ao longo da modernidade, adquirindo uma feição única na região. Segundo a imprensa regional e monografias locais publicadas pelo Jornal O Leme em 2014, o recinto intramuros do Castelo de Santiago do Cacém singulariza-se por albergar o cemitério municipal da cidade, estruturado ao longo dos últimos séculos de história local.
O reconhecimento oficial do valor patrimonial do conjunto tardou até ao século XX, mas culminou em marcos legais de proteção rigorosa. Conforme documentado nos registos de proteção patrimonial pelo Património Cultural em 2023, o Castelo de Santiago do Cacém foi oficialmente classificado como Monumento Nacional por decreto datado de 16 de junho de 1910.
A paisagem que o presente herdou
Hoje, quem caminha em redor da fortificação alentejana depara-se com uma malha urbana que estende a sua proteção patrimonial para além das muralhas de pedra. Segundo a base de dados do SIPA (Sistema de Informação para o Património Arquitectónico) consultada através do Património Cultural em 2023, a Zona de Protecção Especial (ZEP) do castelo e da Igreja Matriz foi fixada por portaria a 27 de outubro de 1949.
Conforme os dados de enquadramento territorial fornecidos pela Região de Turismo da Costa Azul em 2025, o concelho integra uma faixa litoral e planície alentejana onde a toponímia e as lendas medievais de raiz islâmica se encontram fortemente cruzadas com a herança das ordens militares, unindo num mesmo cenário a arqueologia clássica, o peso das comendas e a tradição oral secular.
Atualmente, o visitante que percorre as ruas santiaguenses caminha sobre estratos onde a toponímia guarda a memória de alcaides lendários como Kassen e de figuras bizantinas como D. Vataça, mantendo as muralhas de vigia sobre a planície alentejana.