A voz dos campos recolhida em 1899

No ano de 1899, Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes fundaram em Serpa a revista mensal 'A Tradição', uma publicação dedicada estritamente à recolha etnográfica de lendas, cantos e superstições locais. Esta iniciativa pioneira permitiu fixar por escrito um vasto património imaterial que, até então, vivia apenas na memória dos camponeses do Baixo Alentejo. A publicação em fac-simile da revista, promovida pela Câmara Municipal de Serpa em 1999, disponibilizou publicamente centenas de páginas com transcrições fonéticas de contos tradicionais colhidos diretamente na região.

As narrativas recolhidas por estes investigadores revelam um universo onde a paisagem agrícola e os recursos hídricos surgem indissociavelmente ligados a criaturas fabulosas. Conforme os registos catalogados no âmbito da etnografia do Baixo Alentejo pela Assembleia Distrital de Beja em 1985, as lendas de mouras encantadas em Serpa aparecem frequentemente associadas a fontes de água, covas e tesouros guardados. Estes elementos diferenciam-se das narrativas do norte do país, focando-se numa forte hibridização entre a serpente alada e a moura aquática, segundo um inventário de património imaterial da Rede de Bibliotecas e Arquivos do Alentejo de 2019.

A transmissão oral destas histórias encontrou eco na literatura popular e nos provérbios recolhidos por Maria Rita Ortigão Pinto Cortez no Cancioneiro de Serpa, editado pela Câmara Municipal em 1994. Nestas recolhas, constam ditos profundamente enraizados na terra, demonstrando que a mitologia local não era um corpo estranho, mas sim parte integrante do quotidiano agrícola. A Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Serpa desenvolveu, em 2020, projetos pedagógicos práticos para a reabilitação desta tradição oral e mitos locais junto das novas gerações, garantindo a continuidade do espólio recolhido no século XIX.

Princesas túrdulas e a serpente de Ficalho

Segundo o registo etnográfico divulgado no acervo digital de contos populares pelo Município de Serpa em 2010, a fundação lendária do concelho está associada à figura da princesa Serpínia, filha do rei túrdulo Cófilas. Esta versão culta e mítica contrapõe-se às narrativas de cariz estritamente popular recolhidas no terreno por monógrafos locais. Numa monografia da tradição oral compilada por António Ferreira Lopes e integrada no acervo da Câmara Municipal de Beja em 2000, documenta-se especificamente a lenda da cobra encantada da Horta de Cima, em Vila Verde de Ficalho.

A persistência destas crenças ofídicas foi validada por testemunhos diretos recolhidos no século XX. De acordo com o depoimento colhido pelo investigador Francisco Valente Machado em 1939, a informadora Domingas Roupa relatou crenças locais sobre visões noturnas de uma serpente com trança de cabelo feminina em Ficalho, conforme documentado pelo Centro de Estudos Ataíde Oliveira. Esta entidade apontou, em 2000, paralelismos morfológicos diretos entre a serpente com traços humanos de Serpa e as lendas de mouras e cobras com cabeleira registadas no vizinho concelho de Moura.

A fusão entre estas narrativas míticas e a identidade oficial do território reflecte-se na heráldica municipal. Analisada em monografias locais recolhidas pela Câmara Municipal de Serpa em 2021, a autarquia adotou formalmente uma serpente alada no brasão, remetendo diretamente para a ancestral lenda guardiã das margens do rio Guadiana, historicamente conhecido como o antigo Anas. Registos históricos e monográficos sobre a toponímia de Serpa contrapõem permanentemente esta versão mitológica baseada em seres ofídios protetores com a historiografia oficial.

Castelo de Serpa, Serpa
Castelo de Serpa, SerpaGoogle Places · Oscar González

O fosso entre a tradição oral e o arquivo de pedra

A leitura mais óbvia assumiria que as lendas de Serpa sobre serpentes e princesas encantadas são puras criações mitológicas sem qualquer suporte documental administrativo ou ligação institucional. Contudo, esta premissa desmorona-se quando se cruzam os dados da etnografia com os fundos quinhentistas preservados no concelho. Os registos históricos e as monografias da Câmara Municipal de Serpa de 2021 comprovam que a fixação destas narrativas não ocorreu apenas no folclore oral, mas influenciou a própria estruturação heráldica e identitária do município ao longo dos séculos.

Em termos administrativos, o Arquivo Municipal de Serpa iniciou formalmente a salvaguarda de fundos documentais históricos datados desde meados do século XVI, integrando registos administrativos que espelham a evolução burocrática e social do concelho, conforme relatórios da própria autarquia de 2001. Para assegurar a preservação deste património escrito, a autarquia candidatou-se em 2001 ao Programa de Apoio à Rede de Arquivos Municipais, conhecido pela sigla PARAM, com o objetivo de reestruturar o depósito documental histórico gerido em articulação com a Torre do Tombo, segundo dados do Instituto dos Arquivos Nacionais de 2001.

Deste modo, a investigação histórica distingue categoricamente o registo etnográfico recolhido por cronistas e etnógrafos desde 1899 das fontes administrativas quinhentistas. Enquanto os contos populares de serpentes aladas e mouras aquáticas alimentaram a tradição oral e o Cancioneiro de Serpa de 1994, os forais e as actas municipais documentam a governação e a transição burocrática do território, provando que mito e administração coexistiram na construção da história serpense.

Do Cante Alentejano aos arquivos do século XXI

A salvaguarda da memória colectiva em Serpa ganhou nova dinâmica institucional com a valorização do património imaterial transnacional e regional. No âmbito do Cante Alentejano, reconhecido pela UNESCO em 2015, intensificou-se no concelho de Serpa a inventariação cruzada entre romances tradicionais e contos orais recolhidos por monógrafos locais, conforme relatórios do Município de Serpa datados de 2015. Este trabalho permitiu ligar as antigas modas cantadas às narrativas mitológicas de mouras e serpentes guardiãs de tesouros subterrâneos.

A articulação entre a investigação académica e a comunidade local consolidou-se através de parcerias institucionais e publicações de referência. A publicação em fac-simile da revista 'A Tradição', promovida pela Câmara Municipal de Serpa em 1999, abriu caminho para que o acervo de contos populares recolhidos por Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes pudesse ser estudado por novas gerações de investigadores. Em paralelo, o inventário de património imaterial publicado pela Rede de Bibliotecas e Arquivos do Alentejo em 2019 demonstrou a singularidade do concelho na preservação de mitos ofídicos em comparação com outras regiões do país.

O esforço de digitalização e salvaguarda documental estendeu-se aos centros de estudo e às escolas profissionais da região. O projeto pedagógico desenvolvido pela Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Serpa em 2020 utilizou os registos recolhidos pelo Centro de Estudos Ataíde Oliveira para consciencializar os jovens para a importância de preservar a toponímia lendária e as crenças associadas às linhas de água do concelho, garantindo a sustentabilidade da memória histórica local.

A herança visível na paisagem e no brasão

Hoje, a herança destas narrativas centenárias continua visível tanto na heráldica oficial do concelho como nas margens do rio Guadiana e nas tradições orais mantidas pelas gentes de Vila Verde de Ficalho. A serpente alada adotada formalmente no brasão municipal, analisada nas monografias da Câmara Municipal de Serpa de 2021, serve de testemunho permanente da fusão entre a mitologia túrdula e a recriação popular documentada por Francisco Valente Machado em 1939. Esta simbiose entre o símbolo heráldico e a lenda oral distingue Serpa no contexto do Baixo Alentejo.

A paisagem agrícola do concelho, marcada pelas hortas tradicionais e pelas linhas de água onde outrora se dizia habitarem as mouras encantadas, continua a ser objeto de estudo etnográfico e de valorização institucional. Através do trabalho desenvolvido pelo Arquivo Municipal de Serpa e pelas publicações promovidas pela autarquia desde 1999, o património imaterial recolhido por pioneiros como Ladislau Piçarra e M. Dias Nunes permanece acessível, assegurando que as crenças recolhidas junto dos camponeses serpenses não se percam no tempo.

A vitalidade desta tradição reflete-se na forma como a comunidade escolar e as autarquias continuam a cruzar os registos administrativos quinhentistas com o acervo oral catalogado ao longo do século XX. Entre os documentos salvaguardados pelo PARAM em 2001 e os projetos pedagógicos de 2020, Serpa mantém viva a dualidade entre a história oficial dos seus forais e o fascínio intemporal das suas serpentes lendárias.