A pedra e o foral

O Castelo de Mourão, que se ergue no topo da vila, não é apenas um monumento de pedra; é o arquivo vivo de uma estratégia de defesa que marcou o século XVII durante a Guerra da Restauração, conforme registos audiovisuais do património português (2025). Com uma área territorial de 279 quilómetros quadrados, o concelho, que integra hoje as freguesias de Granja, Luz e Mourão, segundo dados da CIMAC (2020), foi moldado por uma necessidade constante de afirmação territorial que remonta ao século XIII.

A confirmação da carta foral de Mourão, ocorrida em 1266, estabeleceu as bases administrativas de uma vila que, tal como marcos como Alcañises, se encontrava no centro das reformas territoriais da coroa, de acordo com o repositório científico da Universidade de Lisboa (2025). Esta centralidade não era apenas política, mas também social, exigindo uma gestão rigorosa dos recursos naturais, como os terrenos do Baldio do Penedo Gordo, Vale dos Cães, Coitos e Vale da Lapa, integrados no regime florestal pelo ICNF em 1980.

Apesar da solidez das muralhas e dos documentos, a identidade de Mourão é frequentemente procurada nas suas margens. Com uma população residente de 2.663 habitantes, segundo os dados consolidados do INE (2011), o concelho vive num equilíbrio entre o registo histórico, que documenta a sua fundação e as suas lutas, e a tradição oral, que preenche os silêncios da história com figuras míticas e milagres que, embora menos catalogados em monografias locais do que em concelhos vizinhos, persistem na memória coletiva.

Onde a história se torna silêncio

A investigação arqueológica tem trazido à luz factos que a tradição oral apenas sugere. Na Coutada dos Pinheiros, por exemplo, foi identificada uma sepultura altomedieval escavada no Poço do Marra, um achado documentado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto em 1991. Este tipo de vestígio material contrasta com a escassez de monografias municipais dedicadas ao folclore mágico, uma lacuna que diferencia Mourão de outros concelhos alentejanos onde o inventário de 'mouras encantadas' é mais vasto e sistemático.

A relação entre a história e a lenda em Mourão é mediada pela toponímia e pelos confrontos medievais. Segundo a Revista RUA da Universidade do Algarve (2019), a designação de localidades raianas mistura frequentemente memórias de reconquista com figuras míticas de encanto, um fenómeno que se observa na forma como o território é percebido. Não se trata de uma invenção, mas de uma interpretação popular de um passado onde a presença mourisca era uma realidade administrativa, como provam os pedidos de fixação de artesãos em 1445.

Esta dualidade é visível na paisagem. Enquanto os historiadores analisam os forais e as reformas administrativas, a população local mantém viva a memória de eventos que, embora não constem nos arquivos municipais como factos, definem a identidade das suas freguesias. A ausência de uma monografia etnográfica impressa e contemporânea, editada pelo Município, deixa um espaço aberto que é preenchido pela transmissão oral, tornando a história de Mourão um mosaico onde o documento e a lenda se tocam sem se confundirem.

A mariposa e o milagre

Na freguesia da Luz, a tradição oral sobrepõe-se à crueza dos documentos. Conta-se que Nossa Senhora da Luz apareceu a Santo Adriano em cima de uma azinheira, um relato que, segundo o Município de Mourão (2020), é o pilar da identidade religiosa local. O que torna esta lenda particular é a forma da aparição: antes de se revelar como figura sagrada, a entidade ter-se-á manifestado sob a forma de uma mariposa, um detalhe que confere à narrativa uma dimensão mística distinta das lendas de mouras encantadas mais comuns no Alentejo.

O local exato deste milagre, designado na toponímia tradicional por Campos da Lousa, é hoje um ponto de referência que liga o passado lendário ao presente. Ao contrário das lendas de mouras, que frequentemente se perdem em contos transregionalizados, a aparição de Nossa Senhora da Luz está ancorada num lugar específico e num calendário preciso. As festividades, que se realizam anualmente no primeiro domingo de setembro, mantêm uma duração de quatro dias, conforme documentado pelo Município de Mourão (2020), provando a vitalidade desta tradição.

É fundamental distinguir o registo histórico da tradição oral. Enquanto o rei D. João I mandou erguer uma ermida nas imediações de Mourão para comemorar o desbaratamento das hostes castelhanas após 1385, conforme publicações históricas monásticas de 2024, a lenda da mariposa pertence ao domínio da fé e da memória comunitária. A ermida é um facto documentado de vitória militar; a aparição é um facto documentado de devoção popular, ambos coexistindo no mesmo território, mas com origens e propósitos profundamente distintos.

O tríptico de um concelho

A estrutura administrativa atual do concelho, composta pela sede, pela Granja e pela nova Luz, forma um tríptico que reflete as transformações do território, segundo a CIMAC (2020). A freguesia da Luz, em particular, é o exemplo máximo de como a memória pode sobreviver à mudança física. Mesmo com a relocalização da freguesia, a tradição oral sobre a aparição mariana foi preservada, mantendo o elo entre a comunidade e o seu passado lendário, algo que as estatísticas do INE (2011) não conseguem medir, mas que a prática religiosa anual confirma.

A comparação com outros concelhos alentejanos revela que Mourão possui uma especificidade: a sua história é menos sobre o 'encantamento' de mouras e mais sobre a 'luz' da devoção. Enquanto em muitos locais as lendas servem para explicar a origem de fontes ou castelos, em Mourão, a lenda da mariposa serve para explicar a fundação de um culto que define o calendário social. Esta diferença é crucial para compreender a cultura local, que valoriza a continuidade das festividades em detrimento da proliferação de contos folclóricos genéricos.

Os dados do ICNF (1980) sobre a gestão dos baldios e as investigações arqueológicas da Universidade do Porto (1991) mostram um concelho que cuida do seu património físico. No entanto, é na manutenção das festas de setembro que se observa o cuidado com o património imaterial. A persistência destas tradições, mesmo perante a escassez de registos etnográficos formais, demonstra que a memória em Mourão é mantida pela prática e não apenas pelo arquivo, tornando-a uma das mais resilientes da região.

O que permanece no presente

Hoje, quem visita Mourão encontra um concelho que não vive apenas do passado, mas que o integra no seu quotidiano. A toponímia, os restos das muralhas e o calendário festivo são os fios condutores de uma história que se recusa a ser apenas um verbete de enciclopédia. A mariposa da Luz, que se transforma em santa, é a metáfora perfeita para um concelho que soube adaptar-se, desde a pobreza extrema de 1445 até à gestão moderna do seu território, mantendo sempre a sua essência.

O desafio para o futuro reside na preservação desta tradição oral que, por não estar totalmente catalogada em monografias, corre o risco de se diluir. A ausência de um estudo etnográfico detalhado, depositado no Arquivo Municipal, é um convite para que as novas gerações documentem o que os mais velhos ainda contam. O que resta hoje não é apenas o que se vê, mas o que se ouve contar à volta da mesa durante os quatro dias de festa em setembro, uma tradição que, segundo o Município (2020), continua a unir o concelho.

Mourão é, em última análise, um lugar onde a história se escreve com a pedra do castelo e a fé da mariposa. Entre o rigor dos forais de D. Dinis e a leveza das lendas de aparições, o concelho afirma-se como um ponto de encontro entre o Alentejo Central e a sua própria memória. Não é um lugar de lendas esquecidas, mas de tradições vivas, onde cada habitante, dos 2.663 registados pelo INE (2011), é um guardião de um legado que, embora difícil de catalogar, é impossível de ignorar.